Europa: o freio invisível
Peder Tuborgh, CEO da Arla Foods, foi contundente ao expressar que a falta de clareza regulatória na Europa está freando o investimento em infraestrutura láctea.
A pressão sobre os produtores para cumprir novas exigências ambientais, sem uma rota clara nem incentivos de longo prazo, paralisa o crescimento do setor.
Ninguém investe milhões em fazendas robotizadas ou em plantas processadoras de baixo impacto ambiental se não sabe se poderá amortizá-los.
Enquanto a Europa avança em compromissos climáticos e restrições à produção pecuária intensiva, os produtores se veem presos entre a urgência ecológica e a insegurança jurídica.
O resultado: menos leite, menos investimento e preços globais tensionados pela oferta.
Estados Unidos: tarifas, excedentes e tensões
Em paralelo, a administração Trump reacende o fogo do protecionismo. Com a ameaça de “tarifas recíprocas” sobre parceiros estratégicos como México, Canadá e China, o mercado lácteo norte-americano também cambaleia.
Segundo o Departamento de Agricultura dos EUA, o país exportou cerca de USD 8,2 bilhões em lácteos em 2024, mas esse recorde pode se desfazer se os principais destinos impuserem retaliações.
Já fizeram: o Canadá aplicou tarifas de 25% sobre queijos e manteigas, e a China somou 10% sobre certos produtos. Enquanto isso, o México, seu principal comprador, observa com cautela.
A indústria norte-americana, que construiu capacidade instalada para abastecer o mundo, pode ficar presa ao seu próprio estoque, com preços internos em queda e contratos internacionais em risco.
Lucas Fuess, analista do Rabobank, alerta sobre um duplo risco: “Não é só a incerteza das tarifas, também existe a possibilidade de novos custos logísticos, como as cobranças sobre navios operados pela China. Quase 40% das exportações lácteas dos EUA são transportadas por via marítima.”
O investimento, primeira vítima
Quando os preços desabam e os mercados se tornam impenetráveis, o investimento no setor congela. As empresas não apostam em novas plantas, as fazendas não compram tecnologia, os bancos endurecem os créditos.
A indústria láctea, por sua própria natureza, exige planejamento e horizontes de médio a longo prazo: vacas, criação, ordenha, elaboração, logística.
Quem investirá se não sabe se seu produto poderá cruzar a fronteira ou se terá que pagar 25% a mais para entrar em seu principal mercado?
O relatório mais recente do CoBank já mostra quedas nos futuros de leite e soro. Isso não apenas reflete perda de confiança, mas também a certeza de que os excedentes pressionarão os preços.
É uma equação perigosa: menos investimento, menos emprego, menos competitividade.
Oportunidades em mercados emergentes
Enquanto as potências se enredam em suas próprias tensões, alguns países se perfilam como novos protagonistas.
O Brasil, por exemplo, começa a se destacar como futuro exportador lácteo. Embora sua infraestrutura e logística ainda apresentem desafios, sua produção cresce e seu custo de produção se mostra competitivo.
Se conseguir consolidar sua qualidade e estabelecer acordos sanitários, poderá ocupar espaços vagos na Ásia ou na África.
A Argentina, por sua vez, enfrenta uma crise interna que limita seu potencial exportador, mas conta com capacidade ociosa, experiência e acesso a mercados-chave.
As recentes medidas cambiais e a reabertura dos registros de exportação podem favorecer uma retomada exportadora, se o contexto colaborar.
Chile e Uruguai, com indústrias menores porém eficientes, também podem aproveitar nichos premium, especialmente na Ásia, onde o selo de origem e a rastreabilidade ganham importância.
Nova Zelândia: o efeito dominó
Como principal exportador mundial de lácteos, a Nova Zelândia também observa o conflito de perto.
Cada vez que os EUA perdem competitividade internacional, os neozelandeses ganham espaço.
Mas até eles podem sentir os impactos de uma retração global. Menor investimento implica menor volume, menos dinamismo no comércio e maior volatilidade de preços.
Regras claras, leite seguro
A indústria láctea não floresce em terreno pantanoso. Precisa de marcos regulatórios previsíveis, acordos comerciais estáveis e políticas que incentivem o investimento sustentável.
O leite não é uma commodity qualquer: é alimento, emprego, enraizamento e desenvolvimento.
Se o mundo quiser continuar bebendo leite de qualidade, precisa entender que a incerteza não apenas freia investimentos: também desorganiza a oferta, penaliza o produtor e ameaça o consumidor.
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