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9 jan 2026
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Preços internacionais de lácteos em alta, regras mais duras e uma verdade incômoda: sem conformidade, não há mercado.
A recente recuperação do Global Dairy Trade confirma que o mercado global de lácteos não aceita mais ambiguidades.
A recente recuperação do Global Dairy Trade confirma que o mercado global de lácteos não aceita mais ambiguidades.

O início de 2026 trouxe um sinal que a indústria láctea global não pode ignorar. Os preços internacionais reagiram com força.

Os valores da leite em pó superaram USD 3.300 por tonelada, inclusive em produtos de menor rentabilidade histórica, reorganizando expectativas industriais, financeiras e políticas.

Mas a mensagem estrutural é menos confortável do que parece. Preços mais altos já não compram tolerância. Pelo contrário: vêm acompanhados de barreiras de entrada mais rígidas, redefinindo o comércio lácteo global em três dimensões inseparáveis — industrial, financeira e política.

Um mercado que melhora, mas não perdoa

Durante anos, preços baixos funcionaram como justificativa para ineficiências estruturais. Margens apertadas serviram de argumento para adiar investimentos, reformas regulatórias e adequações sanitárias.

Esse discurso perdeu validade. A recente recuperação do Global Dairy Trade não é apenas técnica. Reflete demanda ativa, oferta mais ajustada e compradores dispostos a garantir volumes em um cenário geopolítico incerto. Mais do que isso, confirma que o mercado global de lácteos não aceita mais ambiguidades.

Mastellone e a mensagem que incomoda

Poucos sintetizam esse momento com tanta clareza quanto Flavio Mastellone, referência histórica da indústria láctea argentina:

“Preços mais altos não mudam o essencial. Não existe demanda internacional por lácteos sem certificações sanitárias completas. Cumprir não é opcional — é o passaporte para os mercados que geram valor.”

Não é discurso. É a visão de quem compete em mercados reais, regulados e cada vez mais exigentes.

O fim dos mercados ‘tolerantes’

Por décadas, alguns destinos regionais — com o Brasil como exemplo clássico — funcionaram como válvula de escape para excedentes produtivos. Proximidade geográfica e exigências mais flexíveis sustentaram volumes mesmo sem competitividade estrutural plena.

Esse modelo está se esgotando. Com a oferta crescendo em várias regiões e os preços internacionais se fortalecendo independentemente da demanda regional, depender de um único mercado deixou de ser estratégia e passou a ser risco. O comércio global exige diversificação, previsibilidade e conformidade.

Mercosul: a discussão que não pode mais ser adiada

O debate sobre a Tarifa Externa Comum do Mercosul, hoje em 28% para lácteos, expõe uma tensão política central. Em um mundo de tarifas médias mais baixas, proteção excessiva entra em conflito direto com competitividade global.

Reduzir barreiras implica mais concorrência, mas também força uma reconversão industrial profunda. A questão deixou de ser ideológica: o setor está disposto a jogar segundo as regras globais?

Europa e Ásia: exigência convergente

Na União Europeia, sanidade, rastreabilidade e certificações não se discutem — são pressupostos. O debate se concentra em eficiência, margens e gestão do crescimento da oferta.

A Ásia segue como o principal motor da demanda global. Mas é uma demanda profissionalizada, que paga bem apenas quando qualidade, consistência e garantias sanitárias são inequívocas.

Em ambos os casos, a conclusão é a mesma: o acesso ao mercado tornou-se binário.

Indústria, finanças e política: uma equação única

Este novo cenário expõe uma realidade desconfortável. Produzir mais não basta. A alta de preços não compensa fragilidades estruturais. O comércio lácteo global exige investimento, disciplina financeira, alinhamento regulatório e decisões políticas coerentes.

Os preços elevados oferecem uma oportunidade — e um teste. Quem não aproveitar este momento para se adequar aos padrões internacionais corre o risco de ficar restrito a mercados de baixo valor justamente quando o mundo volta a demandar lácteos.

Conclusão: menos discurso, mais acesso

O mercado internacional envia um recado claro. Paga mais, mas exige mais. Não negocia sanidade, não flexibiliza rastreabilidade e não espera por quem atrasa.

No lácteo global de hoje, competitividade não se mede apenas em toneladas ou preços, mas em credibilidade. E credibilidade é mais difícil de reconstruir do que capacidade produtiva.

O mundo está disposto a comprar.
A pergunta é quem está realmente preparado para vender.

Valéria Hamann

EDAIRYNEWS

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