O leite gelado ocupa um lugar improvável na história política dos Estados Unidos, associado à morte do 12º presidente do país, Zachary Taylor, em julho de 1850, em um episódio que mistura calor extremo, limitações sanitárias do século XIX e controvérsia política.
Taylor participou, em 4 de julho daquele ano, das celebrações do Dia da Independência realizadas nos terrenos recém-dedicados onde mais tarde seria erguido o Monumento a Washington. O dia foi especialmente quente e úmido, condições comuns no verão da capital americana naquela época. Após longas horas ao ar livre, o presidente consumiu grandes quantidades de cerejas frescas, acompanhadas por leite gelado e água fria.
Poucas horas depois, Taylor começou a apresentar sintomas graves: cólicas intensas, diarreia, náuseas persistentes e sinais claros de desidratação. O quadro se agravou ao longo dos dias seguintes. Após quatro dias de sofrimento, o presidente morreu na noite de 9 de julho de 1850, ainda no exercício do cargo.
A morte súbita gerou comoção e, quase imediatamente, rumores de envenenamento. Taylor era proprietário de terras no sul dos Estados Unidos, mas contrariava interesses políticos relevantes ao se opor à expansão da escravidão para novos territórios. Para alguns setores, especialmente no contexto altamente polarizado da época, essa posição o teria transformado em um “traidor” aos olhos de grupos pró-escravidão.
Do ponto de vista médico, entretanto, outras explicações sempre foram consideradas mais plausíveis. Washington, no século XIX, enfrentava surtos recorrentes de cólera durante os meses de verão. A doença, causada por bactérias transmitidas principalmente por água contaminada, era comum em ambientes urbanos com saneamento precário — uma realidade típica da época.
Especialistas históricos apontam que Taylor poderia ter contraído cólera ou outra infecção gastrointestinal por meio da água ou do leite gelado consumidos naquele dia. O uso de gelo natural, frequentemente coletado de rios ou lagos sem tratamento adequado, ampliava os riscos de contaminação. Outra hipótese levantada ao longo dos anos foi a de uma gastroenterite aguda, desencadeada pela combinação de frutas altamente ácidas com leite fresco, em um organismo já debilitado pelo calor extremo.
A controvérsia persistiu por mais de um século. Em 1991, com o objetivo de encerrar definitivamente as teorias conspiratórias, os restos mortais de Zachary Taylor foram exumados para análise laboratorial. Os testes buscaram especificamente vestígios de arsênico, um veneno comum em assassinatos históricos. Os resultados indicaram níveis normais da substância, descartando a hipótese de envenenamento deliberado.
Mesmo assim, o exame não convenceu todos os críticos. Alguns argumentaram que as metodologias utilizadas poderiam não ser suficientes para detectar exposições antigas ou intermitentes. Ainda assim, o consenso acadêmico atual aponta para causas naturais relacionadas a infecção gastrointestinal severa, agravada por desidratação e ausência de tratamentos médicos eficazes na época.
Curiosamente, o episódio não afetou a relação da presidência americana com o consumo de leite. Décadas depois, vacas ainda faziam parte da rotina da Casa Branca. Pauline, a última vaca residente no local, fornecia leite fresco diretamente para o presidente William Howard Taft, no início do século XX, em uma tentativa de garantir qualidade e segurança alimentar.
O caso de Zachary Taylor ilustra não apenas as fragilidades sanitárias do passado, mas também como hábitos alimentares comuns — como beber leite gelado em um dia quente — podem ganhar contornos históricos quando associados a figuras públicas e contextos políticos sensíveis. Mais de 170 anos depois, o episódio segue como uma das curiosidades mais singulares da história presidencial dos Estados Unidos.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Oddee






