A indústria de sorvetes brasileira depende intensamente de matérias-primas de origem agropecuária, como leite, açúcar e frutas, mas mantém uma relação predominantemente indireta com o campo.
Em vez de negociar diretamente com produtores rurais, o setor opera por meio de fornecedores industriais, como laticínios, usinas sucroenergéticas e indústrias processadoras de polpas de frutas.
Essa dinâmica, segundo a Associação Brasileira do Sorvete e Outros Gelados Comestíveis (Abrasorvete), define como as oscilações típicas do agronegócio chegam à indústria final. Preços, volumes disponíveis e impactos climáticos são incorporados ao custo dos insumos já processados, diluindo — mas não eliminando — os efeitos da volatilidade agropecuária.
“A relação da Abrasorvete com o agronegócio é indireta. Nossa atuação se dá por meio de fornecedores industriais, e não por contato direto com produtores rurais”, afirma Martin Eckhardt, diretor da entidade. De acordo com ele, esse modelo cria uma camada intermediária que absorve parte das flutuações do campo antes que elas cheguem à indústria de sorvetes.
Na prática, variações nos preços do leite, do açúcar e das frutas se refletem nos contratos firmados com laticínios, usinas e indústrias de polpas. Eckhardt explica que a estratégia do setor tem sido negociar condições comerciais que permitam absorver oscilações moderadas, combinando eficiência operacional e ajustes graduais de preços. O objetivo central, segundo ele, é preservar competitividade e previsibilidade para o consumidor final.
Os investimentos realizados em 2025 reforçam essa lógica. Em um cenário de custos elevados e juros altos, a prioridade da indústria de sorvetes não foi a expansão agressiva de capacidade produtiva, mas o ganho de eficiência. “Os investimentos estiveram majoritariamente direcionados à otimização do uso de insumos e à eficiência industrial”, afirma o diretor da Abrasorvete. Ampliações ocorreram de forma pontual, sem mudança estrutural na relação com o agronegócio.
Eventos climáticos extremos e oscilações de safra também impactam o setor, mas de forma indireta. Quebras de produção agrícola ou excesso de oferta não se traduzem imediatamente em rupturas, já que os efeitos chegam filtrados pelos fornecedores industriais. Ainda assim, Eckhardt ressalta que o monitoramento constante do mercado de insumos é parte central do planejamento das empresas.
Para mitigar riscos, a indústria de sorvetes aposta na diversificação de fornecedores industriais, contratos com prazos definidos e estratégias de abastecimento que reduzam a dependência de uma única origem. Esse modelo, segundo a entidade, oferece maior resiliência diante de choques pontuais, embora eventos climáticos prolongados possam exigir ajustes mais rápidos na cadeia.
A previsibilidade de custos também passa pelos contratos de longo prazo. Como não há relação direta com produtores rurais, esses acordos são firmados com laticínios, usinas e indústrias processadoras. Dentro desse arranjo, há espaço para contratos mais estruturados, capazes de reduzir a exposição à volatilidade e garantir segurança no fornecimento de insumos essenciais.
Outro componente relevante na formação do custo final é a logística. O frete e o transporte ganham peso especialmente em períodos de alta dos combustíveis ou restrições operacionais. Ainda assim, Eckhardt destaca que o principal fator de custo continua sendo o preço do insumo industrializado. A logística atua como um elemento adicional de pressão, mas não altera a natureza indireta da relação com o agro.
Em termos de oferta, a Abrasorvete avalia que a indústria consegue absorver variações moderadas por meio de estoques reguladores e diversificação de origens. O risco de ruptura no campo, segundo a entidade, não afeta diretamente a indústria de sorvetes, embora eventos extremos ou prolongados possam tensionar a cadeia de suprimentos.
A taxa de juros também influencia decisões estratégicas. Juros elevados desestimulam a formação de grandes estoques, devido ao aumento do custo financeiro do capital imobilizado. Nesse contexto, as compras antecipadas são planejadas de forma seletiva, sempre junto a fornecedores industriais, mantendo um modelo de gestão mais enxuto.
Por fim, a sustentabilidade ganha relevância mesmo em uma relação indireta com o campo. Práticas adotadas por fornecedores industriais, como rastreabilidade, eficiência energética e redução de emissões, são cada vez mais consideradas nas decisões de compra e no posicionamento institucional do setor. Ainda que distante do produtor rural, a indústria de sorvetes acompanha de perto como essas práticas se refletem ao longo da cadeia.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Agrofy News






