Lactose é uma palavra que costuma entrar no vocabulário de muita gente apenas depois dos 40, 50 ou 60 anos.
Alimentos antes triviais, como leite e derivados, passam a provocar gases, distensão abdominal ou desconforto intestinal, levantando uma pergunta comum nas mesas de fim de semana: por que o corpo muda tanto a forma de digerir lácteos com o passar do tempo?
Segundo o gastroenterologista Marcelo Vicente Toledo de Araújo, o envelhecimento provoca transformações estruturais e funcionais no sistema digestivo. Entre elas estão a redução da secreção de ácido gástrico e de enzimas digestivas, além de mudanças na microbiota intestinal. “Essas alterações tornam a digestão mais lenta e favorecem sintomas como inchaço, gases e refluxo”, explica o médico.
No caso específico do leite, a principal explicação está ligada à lactase, enzima responsável por quebrar a lactose no intestino delgado. O nutricionista Sidney Bezerra de Lima destaca que a produção dessa enzima tende a diminuir progressivamente ao longo da vida. “Quando a lactose não é devidamente digerida, ela fermenta no intestino, causando cólicas, gases, distensão e diarreia”, afirma.
Marcelo Araújo reforça, porém, que nem toda dificuldade com lácteos deve ser automaticamente atribuída à idade. “A queda da lactase pode ser natural, mas também pode estar associada a doenças intestinais que prejudicam essa produção. Por isso, investigar é fundamental”, alerta.
Essa distinção é importante para evitar diagnósticos apressados. Muitos adultos passam a excluir leite e derivados da alimentação sem avaliação médica, o que pode gerar impactos nutricionais relevantes. “Cortar leite sem orientação pode comprometer a ingestão de cálcio e afetar a saúde óssea, especialmente em idosos”, observa Sidney Bezerra.
O gastroenterologista também chama atenção para o papel dos medicamentos de uso contínuo, comuns na vida adulta e na terceira idade. Fármacos como a metformina, usada no tratamento do diabetes, podem provocar diarreia e distensão abdominal. Analgésicos favorecem constipação, enquanto antibióticos e antiácidos alteram a microbiota intestinal. “Esses efeitos costumam ser confundidos com intolerâncias alimentares, incluindo à lactose”, explica.
Embora o foco frequentemente recaia sobre o leite, os especialistas lembram que a digestão como um todo se torna mais sensível com o envelhecimento. Alimentos gordurosos, café, álcool e preparações muito condimentadas tendem a causar mais desconforto após os 60 anos. Em pessoas diabéticas ou que retiraram a vesícula, a digestão de gorduras pode ser ainda mais lenta.
Para lidar melhor com essas mudanças, estratégias simples fazem diferença. Sidney Bezerra destaca a importância de aumentar o consumo de água e fibras, além de adaptar a textura dos alimentos. “Legumes cozidos no vapor, carnes moídas e proteínas de fácil digestão ajudam o intestino a funcionar melhor”, recomenda.
Ao mesmo tempo, os especialistas alertam contra o autodiagnóstico e dietas restritivas sem acompanhamento profissional. “Na medicina, não existe regra absoluta. Nem todo desconforto com leite é intolerância à lactose, e cada caso precisa ser avaliado”, reforça Marcelo Araújo.
No fim das contas, envelhecer não significa abandonar os lácteos, mas aprender a escutar o corpo. Ajustes, substituições e orientação adequada permitem que o leite continue presente — ainda que de forma diferente — na rotina alimentar ao longo da vida.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de WSCOM






