A importação de leite em pó, nos atuais patamares, tem pressionado a cadeia leiteira brasileira, segundo avaliação de Mariana Simões, analista de Agronegócios do Sistema Faemg Senar, enquanto o setor aguarda a decisão do MDIC prevista para 2026.
A importação de leite em pó voltou ao centro do debate da cadeia leiteira brasileira, enquanto o setor aguarda uma decisão do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), prevista para maio de 2026, que pode influenciar o desempenho do mercado ao longo do próximo ano.
Desde 2024, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) protocolou um pedido de investigação antidumping sobre a importação de leite em pó oriunda do Mercosul, especialmente da Argentina e do Uruguai, países que, segundo a entidade, estariam comercializando o produto abaixo do valor de mercado. Hoje, esses dois países respondem por cerca de 90% das importações brasileiras de lácteos.
O tema foi discutido recentemente em evento promovido pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), reunindo produtores, cooperativas, sindicatos, representantes do Sistema CNA, lideranças políticas e técnicos do setor. O objetivo foi avaliar alternativas para mitigar os efeitos das importações sobre a cadeia produtiva nacional.
Segundo Mariana Simões, analista de Agronegócios do Sistema Faemg Senar, apesar de iniciativas pontuais adotadas nos últimos anos, a aplicação de medidas antidumping é, no momento, o principal instrumento capaz de reequilibrar o mercado. Ela ressalta que esse tipo de mecanismo está previsto nas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e não configura fechamento de mercado, mas sim a correção de distorções comerciais.
Os dados de preços ajudam a contextualizar a preocupação do setor. Em 2025, o preço médio nacional do leite ao produtor atingiu R$ 2,82 por litro em março e entrou em trajetória de queda nos meses seguintes, encerrando o ano em torno de R$ 2,00. De acordo com a Faemg, trata-se de um dos menores patamares observados nos últimos anos.
Embora o Brasil historicamente seja importador de lácteos, Mariana Simões destaca que o volume atual está acima da média. Enquanto, tradicionalmente, as importações representavam entre 2% e 4% do mercado, esse percentual passou a variar entre 8% e 10% desde meados de 2022, ampliando a oferta total e pressionando os preços internos.
Em 2025, o país importou o equivalente a 2,1 bilhões de litros de leite, volume 5,2% inferior ao do ano anterior, mas ainda elevado. Desse total, 62% tiveram origem na Argentina e 27% no Uruguai. No mesmo período, as exportações brasileiras de lácteos somaram apenas 66 milhões de litros, com queda de 23,8%, reforçando o desequilíbrio entre oferta interna e capacidade de escoamento externo.
A analista observa que, no curto prazo, preços mais baixos contribuem para reduzir a inflação ao consumidor. Nos últimos 12 meses, a inflação do leite e derivados recuou 3,63%, enquanto o IPCA avançou 4,26%, segundo o IBGE. No entanto, ela pondera que essa redução não é integralmente repassada ao consumidor final e pode comprometer a sustentabilidade da produção no médio prazo.
No histórico recente, a CNA já obteve a aplicação de direitos antidumping contra lácteos da União Europeia e da Nova Zelândia entre o fim dos anos 1990 e os anos 2000, o que reduziu o ritmo das importações. Para Antônio de Salvo, presidente da Faemg, instrumentos de defesa comercial ajudam a equilibrar o mercado sem impedir a concorrência, desde que aplicada em condições consideradas justas.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Estado de Minas






