As ciências ômicas estão no centro de um projeto inédito que busca decifrar o microbioma do leite caprino e de queijos de cabra produzidos no bioma Caatinga, com potencial para ampliar qualidade, segurança alimentar e valor agregado dos derivados.
A iniciativa é conduzida por pesquisadores do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal da Paraíba (CCA/UFPB), com apoio do Governo da Paraíba e da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba (Fapesq).
O estudo tem caráter observacional e acompanha diferentes rebanhos ao longo da lactação, coletando amostras de leite em múltiplos momentos. O objetivo é identificar microrganismos específicos e compreender suas propriedades funcionais, criando bases científicas para o desenvolvimento de novos produtos lácteos e processos tecnológicos.
Além das análises convencionais — como composição físico-química, contagem de células somáticas e bacteriologia — as amostras passam por sequenciamento de alto desempenho para meta-taxonomia (rRNA 16S) e transcriptômica. O projeto também emprega metabolômica por ressonância magnética nuclear (NMR) e cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas (LC-MS). As mesmas abordagens serão aplicadas aos queijos elaborados com leite cru de cabra.
Segundo o coordenador da pesquisa, professor Celso José Bruno de Oliveira, o trabalho tem potencial para gerar informações inéditas com alto impacto científico, especialmente na identificação de biomarcadores microbiológicos e processos metabólicos associados ao desenvolvimento de produtos e inovações. Ele destaca ainda aplicações como certificação de origem e a criação de bioprodutos voltados à prevenção e ao controle da mastite caprina, além de métodos de diagnóstico mais sensíveis e precoces.
“O estudo detalhado de queijos caprinos possibilitará o aprimoramento do processo de produção voltado à agregação de valor, com foco em características sensoriais desejáveis, segurança alimentar e possível identificação de compostos bioativos com impacto positivo para a saúde humana”, afirmou o pesquisador.
O projeto é desenvolvido no CCA/UFPB, com co-coordenação do professor Artur Cezar Fernandes, e também na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP), sob coordenação de Marcos Bryan Heinemann e Fernando Nogueira de Souza. Iniciado em 2023, conta ainda com parceria da REDE InovaSocial PB/PE, liderada por pesquisadores da Embrapa Caprinos e Ovinos, e financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Com investimento próximo de R$ 200 mil por meio da chamada FAPESQ-FAPESP 2022, o projeto viabiliza a aplicação de tecnologias avançadas e infraestrutura para atividades de campo e laboratório. Para Oliveira, o aporte reforça o papel da pesquisa aplicada na geração de impacto social, econômico e ambiental no Semiárido, ao mesmo tempo em que agrega valor aos produtos da agricultura familiar e promove sustentabilidade.
A caprinocultura leiteira tem papel estratégico na economia da Paraíba, sobretudo nas regiões semiáridas, onde sustenta milhares de produtores familiares. Embora o estado seja o maior produtor brasileiro de leite caprino, o potencial tecnológico ainda é pouco explorado comercialmente — um contraste com o mercado global, no qual queijos caprinos típicos alcançam elevado valor agregado e contribuem para a geração de riqueza regional.
Nesse contexto, compreender a microbiota do leite torna-se um fator-chave, já que ela influencia diretamente propriedades sensoriais e funcionais dos derivados. Apesar de avanços como a identificação de microrganismos probióticos e seus efeitos nutracêuticos, lacunas no conhecimento sobre a ecologia microbiana ainda limitam o desenvolvimento do setor.
Além dos impactos produtivos, a iniciativa também fortalece a formação técnica e científica, com teses, dissertações e trabalhos acadêmicos derivados do projeto — ampliando a capacitação de novos pesquisadores e consolidando a base de inovação na cadeia caprina brasileira.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de CONFAP






