O recall de fórmulas infantis da Nestlé foi ampliado nesta quarta-feira (4) para incluir lotes das marcas Guigoz, na França, e SMA, no Reino Unido, após a União Europeia introduzir métodos mais avançados para analisar os níveis da toxina cereulida.
A decisão ocorreu apesar das expectativas de analistas de que não seriam necessárias novas retiradas. A cereulida — substância que pode causar náuseas e vômitos — foi identificada em ingredientes fornecidos por uma empresa chinesa que abastece diversas fabricantes de nutrição infantil, entre elas Nestlé, Danone e Lactalis. A descoberta desencadeou recolhimentos em dezenas de países e elevou a preocupação de pais e autoridades sanitárias.
Em comunicado, a Nestlé afirmou que, “considerando o método de análise mais moderno da UE e mantendo nossos rigorosos padrões internos para cereulida em fórmulas infantis, estamos adicionando alguns lotes em alguns países europeus que já faziam parte do recall inicial”.
A companhia não detalhou quantos mercados foram impactados pela ampliação, mas destacou que nenhum país adicional foi incluído. O recolhimento original havia alcançado cerca de 60 países, principalmente na Europa, Ásia e Américas — um indicativo da elevada capilaridade logística desse segmento.
Segundo uma carta vista pela Reuters, a Comissão Europeia solicitou aos Estados-Membros que passassem a medir os níveis de cereulida também em fórmulas líquidas, e não apenas nas versões em pó. Esse ajuste técnico é relevante porque a formulação líquida pode apresentar concentrações mais altas da toxina.
O recall voluntário sugere que a própria Nestlé identificou níveis acima do limite interno da companhia, fixado em 0,2 ng/g — parâmetro mais rigoroso que a nova referência da Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA), de 0,43 ng/g. A diferença evidencia uma tendência crescente de padrões corporativos superando requisitos regulatórios para mitigar riscos reputacionais.
No Reino Unido, a Agência de Normas Alimentares anunciou o recolhimento de mais um lote do produto SMA Advanced First Infant Milk. Já a detecção inicial de baixos níveis de cereulida ocorreu no fim de novembro, mas apenas em 24 de dezembro a empresa confirmou que a origem da contaminação era uma mistura de óleos contendo ARA (ácido araquidônico).
O Ministério da Agricultura da França rastreou o insumo contaminado até a Cabio Biotech, empresa chinesa listada em bolsa cujas ações acumulam queda de cerca de 18% neste ano. A companhia não respondeu aos pedidos de comentário.
No sábado, a França reduziu seu limite de segurança para cereulida em alinhamento às recomendações da EFSA, que formalizou seu próprio teto na segunda-feira — um movimento que sinaliza maior convergência regulatória no bloco europeu.
Analistas do Barclays e do Jefferies haviam indicado que não esperavam recalls adicionais da Nestlé ou da Danone após a atualização do limite, cenário que não se confirmou. Ainda assim, os papéis das duas companhias reagiram positivamente depois de atingirem mínimas de vários meses no fim de janeiro: as ações da Nestlé subiram 1,6% às 13h44 GMT, enquanto as da Danone avançaram 1,3%.
Em paralelo, investigadores franceses analisam uma possível ligação entre a morte de dois bebês e o leite em pó Guigoz retirado do mercado. Autoridades e empresa ressaltam que ainda não há comprovação, e os resultados são aguardados nos próximos dias.
Para a indústria, o episódio reforça a centralidade da rastreabilidade e da governança de fornecedores em cadeias altamente globalizadas — especialmente em categorias sensíveis como nutrição infantil, nas quais mudanças metodológicas podem gerar impactos comerciais imediatos mesmo na ausência de evidências clínicas conclusivas.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de CNN Brasil






