Leite de vaca volta ao centro do debate alimentar após um consenso científico brasileiro afirmar que o produto segue seguro, nutritivo e recomendado ao longo de toda a vida.
O documento, elaborado pela Associação Brasileira de Nutrologia e pela Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição, surge em um contexto de queda no consumo e aumento da desinformação sobre seus efeitos na saúde.
A análise reúne evidências que apontam o leite como fonte relevante de proteínas, cálcio e vitaminas, nutrientes associados ao desenvolvimento ósseo, à manutenção muscular e ao equilíbrio metabólico. A adaptação humana ao consumo após o desmame também é destacada como um marco evolutivo que consolidou o alimento na dieta.
O impacto varia conforme a fase da vida. Na infância e adolescência, o consumo está ligado ao crescimento e à formação dos ossos. Entre adultos, aparece associado ao controle da pressão arterial e à redução do risco cardiovascular. Já na população idosa, a ingestão regular contribui para prevenir osteoporose e sarcopenia, dois fatores críticos para a autonomia e a qualidade de vida.
Um dos pontos mais sensíveis do debate atual envolve a inflamação. O consenso afirma que não há evidências de que o leite provoque processos inflamatórios em indivíduos saudáveis e menciona, inclusive, possíveis melhorias em biomarcadores inflamatórios com o consumo de laticínios. A exceção permanece restrita a pessoas com alergia à proteína do leite de vaca.
A intolerância à lactose também aparece sob nova leitura. Segundo o documento, beber leite não aumenta o risco da condição. Pessoas intolerantes podem ajustar a quantidade ingerida para evitar sintomas ou recorrer a versões sem lactose, estratégia que permite manter o aporte nutricional.
O relatório ainda diferencia os principais tipos disponíveis no mercado, como integral, semidesnatado, desnatado, pasteurizado e UHT. O leite A2A2 é citado como alternativa para indivíduos com desconfortos gastrointestinais não relacionados à lactose, ampliando o leque de escolhas para perfis distintos de consumidores.
Em relação ao processamento, a ultrapasteurização é descrita como um mecanismo eficaz para garantir segurança microbiológica sem alterar as características nutricionais. As embalagens assépticas ajudam a prolongar a vida útil sem necessidade de conservantes, fator relevante para logística e abastecimento.
As diretrizes internacionais mencionadas recomendam três porções diárias de laticínios, reforçando a presença do alimento em padrões alimentares equilibrados. Ainda assim, o consenso enfatiza que orientações devem ser personalizadas conforme condições clínicas e necessidades individuais.
Publicações científicas recentes ajudam a sustentar essa leitura. Estudos indicam que tecnologias ômicas podem apoiar estratégias de nutrição de precisão para pessoas com intolerância à lactose, enquanto outro posicionamento europeu alerta para o sobrediagnóstico da alergia à proteína do leite, prática que pode levar a restrições desnecessárias. Ensaios clínicos randomizados também sugerem que laticínios, independentemente do teor de gordura, não prejudicam a saúde cardiometabólica e podem aliviar fatores de risco.
A mensagem final é direta: salvo contraindicações específicas, o leite permanece como um alimento seguro e funcional. Em um cenário de escolhas cada vez mais influenciadas por percepção e informação fragmentada, o consenso recoloca a ciência como principal referência para decisões alimentares cotidianas.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Ciência do Leite






