WPC 80 inicia 2026 em um ambiente de disponibilidade limitada, no qual decisões industriais e capacidade de processamento pesam mais do que o volume de leite na definição da oferta global.
Apesar da melhora na matéria-prima láctea em regiões-chave, o mercado permanece apertado. Parte relevante da proteína disponível é direcionada a segmentos de maior margem, reduzindo o volume destinado ao concentrado e tornando o equilíbrio físico menos relevante para a liquidez comercial. Nesse contexto, pequenas interrupções produtivas ou logísticas já são suficientes para provocar escassez local e pressão sobre os preços.
A restrição estrutural observada em 2025 continua presente. A produção exige infraestrutura avançada de ultrafiltração e secagem, com ciclos de investimento longos e intensivos em capital. Custos elevados de financiamento e cautela dos processadores desaceleraram a expansão da capacidade, criando um descompasso entre oferta e demanda e fazendo com que a reação produtiva aos sinais de preço ocorra com atraso.
Outro vetor de limitação é a competição dentro do próprio complexo de proteínas do soro. Relações de preço e margem favoreceram o isolado, levando parte dos fabricantes a redirecionar fluxos de matéria-prima. Esse movimento reduziu a flexibilidade do mercado, já que o retorno de volumes ao concentrado depende de estratégias industriais de longo prazo.
O resultado é um mercado spot mais raso. Uma parcela significativa da produção é contratada com meses de antecedência, enquanto os lotes remanescentes chegam de forma fragmentada. Assim, os preços passam a refletir principalmente a disponibilidade física imediata, e não apenas o balanço anual de oferta e demanda.
Do lado do consumo, não há sinais de enfraquecimento no curto prazo. A nutrição esportiva mantém crescimento estável, especialmente em bebidas prontas e snacks hiperproteicos, nos quais o ingrediente atua como base funcional. Em paralelo, a nutrição clínica e a saúde preventiva ganham relevância em economias com população envelhecida.
Mudanças nos padrões alimentares também reforçam essa trajetória. Terapias metabólicas associadas a dietas hiperproteicas e com calorias controladas ampliam a procura por fontes concentradas, reduzindo a exposição do mercado aos ciclos clássicos observados em outras categorias lácteas.
Os estoques globais seguem baixos em relação ao consumo corrente, deixando o sistema vulnerável a rupturas logísticas, sazonalidade na produção de leite e paradas não planejadas. Mesmo quando o balanço anual não indica déficit profundo, a reação a choques de curto prazo tende a ser intensa.
Regionalmente, a dinâmica é heterogênea. A América Latina ainda tem papel limitado na oferta, mas cresce como mercado consumidor e potencial destino de investimentos em ultrafiltração. Barreiras estruturais, custos logísticos mais altos e instabilidade cambial dificultam uma expansão rápida.
A Ásia concentra o maior crescimento da demanda e influencia diretamente o sentimento global. O avanço de suplementos, alimentos funcionais e canais de e-commerce absorve volumes relevantes de exportação, enquanto a produção local restrita mantém elevada dependência de importações. A Oceania atua como fornecedora complementar, sobretudo quando Europa e América do Norte priorizam outras rotas de processamento.
A Europa segue como um dos principais polos exportadores, ainda que sob pressão de custos energéticos, exigências ambientais e padrões de qualidade elevados. O mercado regional permanece ajustado, com forte pré-contratação e concorrência pela matéria-prima do isolado, limitando respostas rápidas a eventuais déficits globais.
Na África, a presença na oferta é marginal, mas a demanda cresce gradualmente em segmentos de fitness, suplementação e aplicações industriais. A região permanece sensível a fatores como câmbio, frete e acesso a financiamento de importações.
Para 2026, a expectativa é de continuidade do aperto, com preços sustentados pela capacidade industrial plenamente utilizada e pela alocação estratégica do soro. Em janeiro, foram reportados níveis próximos de €14.500 por tonelada métrica para WPC 80 instantâneo na União Europeia, além de sinais de volumes já comprometidos em alguns produtores.
Os preços devem responder sobretudo à disponibilidade física de curto prazo, ao ritmo das compras de importação e à liquidez do mercado spot. Custos de energia e produção tendem a manter a base industrial elevada, enquanto a natureza estrutural da demanda limita o risco de fraqueza prolongada em termos de valor.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Global Report | Foodcom S.A.






