Leite em pó está no centro de um megaprojeto industrial que pretende reposicionar a estratégia de abastecimento da Argélia.
Em Adrar, no sul do país, um complexo com capacidade estimada de 100 mil toneladas anuais busca reduzir a dependência de importações ao estruturar uma cadeia produtiva completa em um único ecossistema.
O contrato foi assinado em 28 de julho de 2025, em Argel, reunindo a alemã GEA, a Baladna, do Qatar, e o Fundo Nacional de Investimentos da Argélia. O empreendimento será operado por uma nova entidade, a Baladna Algeria S.P.A., criada para financiar e gerir a operação, com meta de início no fim de 2027.
O diferencial do projeto não está apenas no volume projetado, mas na proposta de construir praticamente do zero uma fazenda leiteira integrada a uma unidade industrial de processamento, secagem e embalagem. A lógica é transformar leite cru em um produto estável e de fácil transporte, característica que explica por que muitos países recorrem ao leite em pó para garantir oferta mesmo diante de gargalos internos.
Localizada em uma região desértica e distante do eixo costeiro mais populoso, Adrar impõe exigências operacionais incomuns para um alimento sensível ao calor e dependente de água e cadeia fria. A decisão sinaliza a necessidade de infraestrutura robusta, combinando logística, energia, biossegurança e gestão hídrica.
Produzir nessa escala exige fluxo contínuo de matéria-prima, padronização, controle sanitário e laboratório de qualidade. O núcleo industrial depende de sistemas de secagem altamente eficientes, já que o processo consiste em remover grandes volumes de água sem comprometer as propriedades do produto.
O caminho técnico envolve concentrar o leite por evaporação e, depois, aplicar spray drying, no qual o líquido atomizado entra em contato com ar quente e se transforma rapidamente em pó. Temperatura, umidade, fluxo de ar e eficiência energética precisam operar com precisão industrial, pois qualquer instabilidade pode gerar perdas, alterar solubilidade ou afetar atributos sensoriais.
Energia e eficiência tornam-se fatores críticos, uma vez que evaporar água em escala é uma das tarefas mais caras da indústria de alimentos. Nesse contexto, projetos desse porte concentram investimento e risco em equipamentos como torres de secagem, evaporadores e sistemas de automação.
O cronograma prevê início das obras em 2026 e operação relevante no fim de 2027, um prazo considerado agressivo para um complexo que reúne fazenda e indústria. A entrada em regime tende a ocorrer de forma gradual, com testes, produções piloto e ajustes antes da plena capacidade.
A iniciativa se conecta a um pano de fundo estratégico: a Argélia figura há anos como um mercado relevante para commodities lácteas e já foi descrita como um comprador potencialmente número um em volume. Internalizar parte desse abastecimento reduz exposição a variáveis como preço internacional, câmbio e logística.
Mais do que conveniência operacional, o modelo integrado busca reduzir perdas, sincronizar produção e processamento e aumentar a previsibilidade do fornecimento. Embora exija capital elevado na largada, tende a oferecer maior estabilidade se a infraestrutura estiver bem dimensionada.
Além da geração de empregos, megaprojetos desse tipo costumam impulsionar rotas logísticas, serviços técnicos e formação de mão de obra especializada. No ambiente extremo de Adrar, manter a operação contínua será parte central da equação econômica.
Os sinais de avanço devem aparecer em licenças, obras de infraestrutura, instalação de equipamentos e etapas de comissionamento. Mudanças no volume importado pelo país também podem indicar se a estratégia começa a produzir efeitos.
A ambição final vai além de recordes de capacidade. Trata-se de criar uma base industrial capaz de produzir, processar e estocar em escala um alimento considerado chave para a segurança alimentar.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de CPG Click Petróleo e Gás






