O queijo Canastra conduzido pelo agrônomo Vinícius Soares, em Piumhi, na Serra da Canastra, revela como decisões técnicas individuais podem redefinir o equilíbrio entre certificação, produtividade e sustentabilidade na produção artesanal.
Formado pela Universidade de Viçosa e com passagem por indústrias como Danone e Itambé, Soares deixou a carreira corporativa durante a pandemia para assumir integralmente a queijaria da família. A mudança marcou não apenas um retorno às origens, mas a aplicação prática de conhecimento agronômico em pequena escala.
Na propriedade de 25 hectares, 44% da área permanecem preservados com mata nativa. No restante, o agrônomo implantou manejo regenerativo integrando pastagem, agrofloresta e bem-estar animal. O sistema silvipastoril intensivo ocupa 3,4 hectares com pastagem rotacionada, árvores, arbustos, leguminosas e gramíneas.
Entre as espécies introduzidas está o margaridão, também conhecido como girassol mexicano, cujas folhas apresentam 20% de proteína. A estratégia amplia a diversidade alimentar do rebanho mestiço criado solto. Já foram plantadas 800 árvores, com a perspectiva de produzir queijo sob cobertura florestal em cinco a dez anos.
A produção média atual é de cerca de 80 litros de leite por dia. O queijo segue receita da avó do produtor, é feito com leite cru e fermento natural e passa por maturação que promove degradação natural da lactose, resultando em produto zero lactose. A propriedade possui o Selo Queijo Artesanal, que autoriza comercialização nacional.
Durante três anos, Soares manteve certificação orgânica concedida pelo Instituto de Biodinâmica, registrado no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. A experiência trouxe um ponto de inflexão técnico.
Segundo o agrônomo, as restrições de insumos no sistema orgânico limitaram o desempenho produtivo. As vacas produziam entre 8,5 e 9 litros por dia. Após a saída do selo e a flexibilização alimentar, a média subiu para 14 litros/vaca/dia. A decisão manteve o manejo agroecológico e regenerativo, mas priorizou viabilidade econômica.
O reconhecimento de mercado acompanhou o posicionamento. Em 2022, a marca Faz o Bem conquistou medalhas de prata e bronze no Mundial do Queijo do Brasil. Em setembro do ano passado, obteve segundo lugar na categoria Queijos de Casca Florida Natural no 18º Concurso de Queijos Artesanais de Minas Gerais.
Soares não pretende ampliar escala. O foco declarado é consolidar o queijo Canastra como referência em impacto ambiental positivo e bem-estar animal, demonstrando que, sob liderança técnica direta, a pequena produção pode combinar identidade territorial e desempenho zootécnico consistente.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Globo Rural






