Intolerância à lactose pode parecer um detalhe do cardápio moderno, mas é, na verdade, uma questão genética que afeta 51% dos brasileiros, segundo levantamento do laboratório Genera.
O dado chama atenção porque beber leite na vida adulta, do ponto de vista biológico, não é exatamente o padrão da espécie humana.
Todos os mamíferos produzem leite para alimentar seus filhotes. E todos, em condições naturais, deixam de consumi-lo depois do desmame. Com os humanos não seria diferente — não fosse uma mutação genética específica que mudou essa história em algumas populações.
De acordo com a médica Rejane Mattar, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, todos nascemos com o gene responsável pela produção da lactase, enzima que digere a lactose, o açúcar do leite. Na infância, ela funciona plenamente. Após o período de amamentação, porém, sua atividade tende a cair de forma natural.
O que altera esse roteiro são polimorfismos genéticos que mantêm o gene “ligado” ao longo da vida. Essa condição é chamada de lactase persistente. Quem não carrega essa mutação desenvolve a chamada hipolactasia, base biológica da intolerância à lactose.
Os números globais mostram como essa característica varia conforme a história evolutiva. Pesquisa da Universidade Federal do Paraná indica que cerca de 90% dos asiáticos não digerem lactose na vida adulta. Entre africanos, a taxa gira em torno de 75%. Já em populações do norte da Europa, a intolerância é rara — resultado de séculos de seleção natural associada ao consumo de leite.
Na prática, quando a lactose não é digerida no intestino delgado, ela segue intacta para o intestino grosso. Lá, é fermentada por bactérias, produzindo gases e ácidos. O resultado pode ser inchaço abdominal, dor e diarreia. Mas há nuances: algumas pessoas geneticamente intolerantes apresentam poucos ou nenhum sintoma.
Apesar do debate genético, especialistas lembram que leite e derivados continuam sendo alimentos nutricionalmente relevantes. A nutricionista Lara Natacci, da Faculdade de Saúde Pública da USP, destaca que versões zero lactose preservam praticamente os mesmos nutrientes, como proteínas, cálcio e vitaminas — apenas passam por um processo que “quebra” previamente a lactose.
No fim das contas, tomar leite depois de adulto não é certo nem errado: é uma questão de biologia individual. Para alguns, é tradição e fonte de nutrientes. Para outros, é desconforto garantido. A diferença está escrita no DNA.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de TNH1






