A indústria de alimentos no Brasil inicia 2026 em um cenário ainda favorável em termos de demanda, mas com sinais claros de pressão crescente sobre a rentabilidade.
Após um 2025 robusto, com faturamento superior a R$ 1 trilhão, o setor projeta crescimento entre 2% e 2,5% neste ano, sustentado principalmente pelo consumo doméstico e por uma recuperação gradual do mercado internacional.
Em Minas Gerais, um dos principais polos industriais do país, o desempenho recente reforça essa tendência. O estado registrou faturamento de R$ 164,5 bilhões em 2025, avanço de 17,5% sobre o ano anterior, consolidando o peso da indústria de alimentos na economia regional. O ambiente de início de ano, descrito como positivo, apoia-se em uma combinação de safra estável, expectativa de redução gradual dos juros e um cenário macroeconômico de crescimento moderado.
Ainda assim, o vetor mais relevante para 2026 não está do lado da demanda, mas sim da estrutura de custos.
A recente decisão do Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex-Camex) de reduzir tarifas de importação sobre resinas plásticas — insumo derivado do petróleo e essencial para a produção de embalagens — introduz um fator de alívio no curto prazo. Considerando que cerca de 15% dos custos da indústria de alimentos estão associados às embalagens, a medida contribui para melhorar as condições operacionais em um momento de elevada sensibilidade a custos.
No entanto, esse alívio convive com riscos relevantes no cenário internacional. As tensões no Oriente Médio, com potencial impacto sobre o petróleo e as rotas logísticas globais, recolocam incertezas sobre a trajetória dos custos industriais. A indústria já antecipa possíveis aumentos nos preços de insumos, especialmente aqueles vinculados à cadeia petroquímica e ao transporte.
Essa dinâmica cria um ambiente de volatilidade, no qual ganhos pontuais de competitividade podem ser rapidamente neutralizados por choques externos. Para empresas do setor, isso se traduz em maior dificuldade de planejamento e necessidade de ajustes contínuos nas estratégias de compras e precificação.
Outro elemento central é a limitação na capacidade de repasse desses custos ao consumidor final.
Apesar da demanda ainda resiliente, o ambiente de consumo apresenta sinais de restrição. O início do ano concentra compromissos financeiros das famílias, como impostos e despesas sazonais, reduzindo a renda disponível e tornando o mercado mais sensível a reajustes de preços. Nesse contexto, a indústria reconhece que eventuais aumentos de custos não poderão ser transferidos integralmente nem de forma imediata.
A tendência, portanto, é de repasses graduais, com impacto direto sobre as margens. Esse cenário exige maior disciplina na gestão de custos e maior seletividade nas estratégias comerciais, especialmente em categorias mais expostas à elasticidade de preço.
Eventos pontuais, como a realização da Copa do Mundo ao longo do ano, podem gerar estímulos temporários ao consumo, especialmente em produtos ligados à conveniência, snacks e ocasiões de socialização. No entanto, esses efeitos são limitados no tempo e não alteram o quadro estrutural de pressão sobre a rentabilidade.
Para a indústria, o desafio central em 2026 não será encontrar demanda, mas sim sustentar margens em um ambiente de custos instáveis e consumo cauteloso. A combinação de fatores internos — como juros e renda — com variáveis externas — como petróleo e logística global — define um cenário mais complexo, no qual eficiência operacional e gestão estratégica ganham ainda mais relevância.
Nesse contexto, a indústria de alimentos entra em 2026 com bases sólidas de crescimento, mas diante de um equilíbrio mais delicado entre expansão e rentabilidade, exigindo respostas rápidas e bem calibradas ao longo do ano.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Diário do Comércio






