A inflação global volta ao centro das decisões na cadeia láctea após a Danone sinalizar que a guerra no Irã pode levar a ajustes de preços, dependendo da duração do conflito.
A companhia ainda não chegou a esse ponto, mas admite que o desfecho nas próximas semanas será determinante para o impacto macroeconômico.
O que muda é o vetor de custos. O bloqueio do Estreito de Ormuz elevou os preços de energia e pressionou fertilizantes e transporte marítimo. Esse choque se transmite ao longo da cadeia, encarecendo commodities, insumos agrícolas, embalagens e frete. Na prática, trata-se de um aumento difuso de custos que tende a aparecer de forma gradual nos preços finais.
O mecanismo é conhecido, mas ganha intensidade no contexto atual. Custos logísticos e energéticos mais altos são incorporados progressivamente pelos elos da cadeia até chegar ao varejo. Economistas indicam que a expectativa de desaceleração da inflação de alimentos não deve se confirmar neste ano, diante desse novo patamar de custos. Mesmo em um cenário de resolução do conflito no curto prazo, a tendência apontada é de inflação mais alta e crescimento mais fraco.
Para o empresário do setor lácteo, isso altera o balanço entre volume e preço. Após um período de reajustes mais intensos, a Danone vinha priorizando crescimento em volume, com aumento médio de preços de cerca de 2,1% e avanço de 2,5% em volume no quarto trimestre. A estratégia reflete a necessidade de recuperar consumo após a migração para marcas mais baratas durante o pico inflacionário de 2022. Com custos novamente pressionados, esse equilíbrio pode se tornar mais difícil de sustentar.
O contexto competitivo adiciona complexidade. Marcas próprias seguem oferecendo maior margem ao varejo, o que limita espaço para repasses integrais sem impacto em participação. Ao mesmo tempo, o consumidor está mais seletivo, exigindo clareza de proposta de valor. A resposta da Danone tem sido reforçar o portfólio de nutrição saudável e investir em diferenciação, como evidenciado pela aquisição da Huel, ampliando presença em proteínas e nutrição funcional.
Do lado do varejo, já há sinais de limite na absorção de custos. Empresas reportam aumento relevante em despesas com combustível e frete e indicam que, se persistirem, os repasses serão inevitáveis. Esse movimento sugere menor capacidade de amortecimento na ponta final, acelerando a transmissão de custos ao consumidor.
Para a cadeia láctea, a leitura é direta. A pressão inflacionária não vem de um único insumo, mas de um conjunto de custos interligados. A incerteza sobre a duração do conflito aumenta a volatilidade e reduz previsibilidade de preços e margens. Nesse ambiente, decisões sobre mix, posicionamento e política de preços tendem a ganhar centralidade, com menor espaço para erros de timing.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Times Br






