O mercado internacional de exportadores de lácteos vive uma fase de reorganização. Com o crescimento da produção mundial mais lento em 2026 e margens mais pressionadas, os sete principais exportadores estão destinando uma parcela maior do leite para queijo, whey e ingredientes de maior valor agregado, enquanto manteiga e leites em pó perdem prioridade em diversas regiões.
A previsão é que a produção mundial de leite avance cerca de 1% em 2026, bem abaixo dos 3,1% registrados em 2025. Segundo as projeções, a produção deverá atingir seu pico no segundo trimestre, estabilizar no terceiro e recuar no quarto, refletindo um cenário de custos maiores, riscos climáticos e pressões regulatórias e geopolíticas.
Essa desaceleração está alterando a forma como as indústrias distribuem o leite disponível. Em vez de ampliar a produção de commodities tradicionais, diversos países passaram a concentrar investimentos em categorias capazes de gerar retornos superiores.
A Austrália é um dos exemplos mais claros dessa mudança. Mesmo com recuperação da produção para 8,6 milhões de toneladas em 2026, a maior parte do leite deverá ser destinada à fabricação de queijo, reduzindo espaço para manteiga e leite em pó desnatado. O país prevê exportar cerca de 175 mil toneladas de queijo, tendo Japão e China como principais destinos, enquanto Tailândia e Malásia ampliam participação e reforçam a importância do Sudeste Asiático para o setor.
Na Nova Zelândia, a estratégia também privilegia produtos de maior margem. A produção deverá alcançar 22,1 milhões de toneladas, superando as 21,93 milhões de toneladas de 2025. O crescimento é sustentado por melhores preços ao produtor, ganhos de produtividade e expansão do rebanho.
Ao mesmo tempo, os processadores ampliam a fabricação de queijo, ingredientes para nutrição especializada e proteínas premium de whey, reduzindo a dependência dos leites em pó convencionais. A China continua sendo o principal mercado, absorvendo entre 36% e 40% das exportações lácteas neozelandesas.
Na União Europeia, mesmo com redução prevista de 0,7% no número de vacas, a produtividade mantém a produção praticamente estável, com alta de 0,1% sobre 2025. O leite disponível também está sendo direcionado prioritariamente para queijo e para a ampliação da oferta de whey destinado ao mercado de proteínas premium. Apesar disso, as perspectivas para as exportações são mais cautelosas, diante da combinação de custos logísticos maiores, menor demanda chinesa e disputas comerciais.
Enquanto alguns países apostam na diversificação, o Uruguai mantém crescimento apoiado principalmente em leite em pó integral e manteiga. Até maio de 2026, a receita das exportações aumentou 3% em relação ao mesmo período do ano anterior, impulsionada justamente por esses produtos, enquanto os embarques de queijo recuaram. Argélia e Brasil permanecem como os principais compradores.
Nos Estados Unidos, a expansão da produção de leite sustenta um desempenho exportador mais forte. Até abril de 2026, as exportações de queijo cresceram 25,1%, chegando a quase 238 mil toneladas, enquanto o acumulado dos últimos 12 meses alcançou aproximadamente 660 mil toneladas, estabelecendo um novo recorde. A Coreia do Sul aparece entre os principais motores desse crescimento.
As exportações de leite em pó desnatado avançam de forma mais moderada, com alta de 6,2% no acumulado do ano. Já o whey apresenta um comportamento distinto: enquanto o whey commodity cresce nas exportações, as proteínas premium, como WPC80+, registram volumes menores, reflexo da prioridade dada ao mercado doméstico de alimentos ricos em proteína.
Na América do Sul, a Argentina também amplia sua participação no comércio internacional. A produção de leite deverá crescer 4% em 2026, aproximando-se de 12 milhões de toneladas. Como o consumo interno se recupera lentamente, uma parcela maior da produção está sendo direcionada às exportações, especialmente de queijo e leite em pó integral, tendo Brasil e Argélia entre os principais destinos.
O Brasil segue uma dinâmica diferente. Após forte expansão em 2025, a produção perde ritmo ao longo de 2026, principalmente no segundo semestre. O país continua sendo um importante comprador internacional de leite em pó, enquanto seu ciclo pecuário entra em uma fase de maior restrição, com expectativa de menor abate de vacas, mesmo diante da demanda externa elevada.
Do lado da demanda, a China permanece como um dos mercados mais relevantes, mas passa por uma transformação importante. A maior oferta doméstica de leite e o consumo mais fraco reduziram a necessidade de importar leite em pó integral e desnatado.
Em contrapartida, continuam sustentadas as compras de queijo, manteiga e whey, especialmente para segmentos como foodservice, panificação e produtos premium, nos quais a produção local não atende totalmente os requisitos de qualidade ou volume.
O resultado é um mercado internacional menos concentrado nas commodities tradicionais e cada vez mais orientado para produtos de maior valor agregado. Em diferentes regiões, o queijo e as proteínas do soro deixam de ser apenas alternativas industriais e passam a ocupar posição central nas estratégias dos principais exportadores mundiais.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Dairy Reporter






