O acordo Austrália-UE reposiciona fluxos comerciais ao remover a maioria das tarifas e ampliar o acesso a mercados, com impacto estimado em US$ 10 bilhões anuais. Para a cadeia láctea, a leitura não é linear.
O desenho do acordo combina abertura relevante com exceções e limites que sugerem ganhos assimétricos entre setores.
A União Europeia elimina tarifas sobre exportações australianas como vinho, frutos do mar, carne bovina e lácteos, enquanto a Austrália retira sua tarifa de 5% sobre produtos europeus e ajusta o imposto sobre carros de luxo para veículos elétricos. Na prática, há redução de custos de entrada e maior previsibilidade comercial. Do lado europeu, estima-se economia anual de €1 bilhão em tarifas e potencial de crescimento de exportações de até 33% na próxima década.
O mecanismo, no entanto, revela onde surgem as tensões. A ampliação de acesso vem acompanhada de cotas em segmentos sensíveis. No caso das carnes, o limite de 35 mil toneladas para exportações australianas de carne bovina à UE, abaixo das 50 mil toneladas buscadas pelo setor, desencadeou críticas de exportadores, que consideram o volume insuficiente para diversificação no mercado europeu. Embora o texto não detalhe cotas específicas para lácteos, o padrão negociado indica que a abertura não é irrestrita e pode replicar restrições em categorias estratégicas.
Outro ponto sensível é a preservação de determinados nomes de produtos para uso doméstico na Austrália, apesar de objeções europeias. Esse arranjo sinaliza concessões regulatórias que evitam ruptura interna, mas também delimitam o alcance da harmonização de mercado, um aspecto relevante para categorias com forte identidade de origem, como vários derivados lácteos.
A remoção de tarifas tende a melhorar a competitividade de exportações australianas, inclusive lácteas, ao reduzir custos e barreiras. Ao mesmo tempo, a experiência das carnes indica que o acesso efetivo pode ser condicionado por limites quantitativos. Para operadores brasileiros, isso altera o mapa competitivo em dois sentidos. Primeiro, reforça a presença europeia na Austrália, dado o fim da tarifa de 5% e o potencial aumento de exportações da UE. Segundo, sugere que ganhos australianos no mercado europeu podem ser graduais, dependendo de como as restrições se manifestam por categoria.
Contexto estratégico amplia a leitura. O acordo inclui cooperação em segurança, indústria de defesa e cibersegurança, além da entrada da Austrália no programa Horizon Europe em 2027. Também abre acesso a matérias-primas críticas como alumínio, lítio e manganês. Esse pacote indica aprofundamento da relação bilateral além do comércio, criando um ambiente de integração que pode favorecer cadeias com maior capacidade de adaptação regulatória e tecnológica.
Em síntese, o acordo Austrália-UE não é intrinsecamente “desleal” com a indústria láctea, mas estabelece um campo de jogo onde abertura e restrições coexistem. A vantagem competitiva dependerá da capacidade de operar dentro desses limites, capturando ganhos tarifários enquanto se navega por cotas e exceções. Para a tomada de decisão, o foco deve estar em monitorar como os mecanismos aplicados às carnes se refletem, direta ou indiretamente, nos lácteos e na dinâmica de acesso efetivo ao mercado europeu.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de MSN






