Compost Barn é o eixo central da transformação produtiva observada na Fazenda Santa Maria, localizada no interior de Humaitá, no Noroeste do Rio Grande do Sul.
A adoção do sistema de confinamento, associada a investimentos em bem-estar animal, manejo técnico e agroindustrialização, permitiu à propriedade avançar simultaneamente em produtividade, qualidade do leite e agregação de valor.
A fazenda é conduzida pelo casal Jackson e Liliane Borstmann. Médico veterinário, Jackson decidiu estruturar o próprio negócio rural há cerca de 11 anos, a partir da experiência acumulada no atendimento a outras propriedades leiteiras da região. Segundo ele, a decisão foi precedida por análise técnica e econômica da viabilidade da atividade. Hoje, a Fazenda Santa Maria produz leite tipo A, categoria que exige padrões rigorosos de qualidade e controle sanitário definidos pela legislação brasileira.
O leite tipo A deve ser obtido a partir de um único rebanho, em uma única propriedade, com envase realizado na própria fazenda e sem contato humano direto com o produto. Esse modelo exige alto nível de organização produtiva, rastreabilidade e infraestrutura adequada, o que direcionou as escolhas tecnológicas feitas ao longo do projeto.
A implantação do sistema Compost Barn foi um ponto de inflexão. O modelo prioriza o conforto animal por meio de uma grande área coletiva coberta, com cama de maravalha em processo contínuo de compostagem. As vacas têm liberdade de movimentação, acesso permanente à água e alimentação, além de melhores condições de higiene, mesmo em períodos de alta umidade. De acordo com Jackson Borstmann, o sistema se mostrou especialmente eficiente durante invernos chuvosos, mantendo os animais limpos e com desempenho produtivo estável.
Atualmente, a propriedade conta com 166 animais no total, sendo 95 vacas em lactação. Há um projeto de ampliação do Compost Barn para atender até 140 vacas em produção. Com ajustes nutricionais e avanços em melhoramento genético, a média produtiva alcançou 35 litros de leite por vaca/dia, com meta de atingir 40 litros nos próximos anos.
Para Liliane Borstmann, que não tinha vivência prévia com a atividade rural, o projeto representou uma mudança profunda de trajetória. Segundo ela, o aprendizado foi construído no dia a dia, com dedicação ao trabalho e envolvimento direto na gestão da propriedade e da agroindústria.
O desenvolvimento do projeto contou com acompanhamento técnico da Emater/RS-Ascar desde as etapas iniciais. O extensionista rural Ademir Wagner destaca que a instituição atuou em diversas frentes, incluindo manejo do rebanho, uso racional da água, produção de forragens, silagem, além da implantação e legalização da agroindústria. O suporte técnico foi determinante para alinhar produção primária, processamento e exigências sanitárias.
Antes da implantação da agroindústria, todo o leite produzido era comercializado com a indústria. Atualmente, parte da produção é processada na própria fazenda. Além do leite tipo A, a Fazenda Santa Maria fabrica iogurtes, queijos coloniais e temperados e iniciou a produção de doce de leite, com foco em um perfil artesanal e de alta qualidade.
Um dos diferenciais do processamento está no iogurte, elaborado exclusivamente com leite pasteurizado, sem adição de soro, característica que, segundo os produtores, preserva sabor e identidade do produto. Parte da produção é destinada à merenda escolar do município, ampliando o vínculo entre produção local e políticas públicas de alimentação.
A viabilização da agroindústria ocorreu com recursos da Consulta Popular, voltados à melhoria do processamento e da comercialização do leite em Humaitá. Posteriormente, a adesão ao Programa Agrofamília permitiu a aquisição de novos equipamentos e a ampliação da planta industrial, elevando a capacidade produtiva e o alcance de mercado.
Além da produção, a propriedade desenvolve o projeto educativo “Aula fora da sala de aula”, que recebe crianças para apresentar o ciclo produtivo do leite. A iniciativa busca aproximar o meio urbano da realidade do campo e reforçar a compreensão sobre a origem dos alimentos.
O próximo passo da Fazenda Santa Maria é a migração do Serviço de Inspeção Municipal (SIM) para o Sistema Unificado Estadual de Sanidade Agroindustrial Familiar, Artesanal e de Pequeno Porte (Susaf). A mudança permitirá atender a merenda escolar de outros municípios da região e ampliar a comercialização. A experiência demonstra como planejamento, assistência técnica e inovação podem fortalecer a permanência das famílias no campo, com sustentabilidade e geração de renda.
🧠 Executive brief
1) Por que importa: O caso evidencia como tecnologia de manejo, agroindustrialização e políticas públicas podem elevar competitividade na produção leiteira familiar.
2) O que está acontecendo: A adoção do Compost Barn, combinada à produção de leite tipo A e processamento próprio, integrou produtividade, qualidade e valor agregado.
3) O que muda para o setor lácteo: Reforça a viabilidade de modelos intensivos, tecnificados e alinhados a bem-estar animal, mesmo em propriedades familiares.
4) Riscos de não agir: Manter sistemas pouco eficientes limita renda, sucessão rural e acesso a mercados institucionais e diferenciados.
5) Decisões que habilita: Estimula investimentos em sistemas de conforto animal, inspeção ampliada (Susaf) e integração entre produção e processamento.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Ciência do Leite






