Os custos de produção do leite, que vinham em trajetória de queda no início do ano, devem sofrer uma reversão já em março, segundo avaliação da equipe econômica da Farsul.
A mudança de direção ocorre após um período de deflação acumulada de 4,49%, impulsionada principalmente pela redução nos preços de insumos estratégicos.
Em fevereiro, o Índice de Insumos para Produção de Leite Cru do Rio Grande do Sul recuou 2,7%. O movimento foi liderado pela queda nas cotações da soja e do milho, com reduções de 4,2% e 2,4%, respectivamente. Esses dois componentes têm peso direto na estrutura de custos, especialmente na produção de silagem e no uso de concentrados.
Outros itens relevantes também contribuíram para o alívio. Fertilizantes registraram queda de 1,72%, combustíveis recuaram 0,37% e a energia apresentou retração de 6,7%, influenciada por fatores sazonais. O conjunto desses movimentos consolidou um processo desinflacionário que vinha sendo repassado aos principais componentes da cesta de insumos.
Apesar desse cenário de custos mais baixos, a dinâmica econômica da atividade permaneceu desfavorável. O principal fator é o descolamento entre custo e receita. Nos últimos 12 meses, o custo de produção caiu 7,7%, enquanto o preço recebido pelo produtor recuou 20%. Essa diferença ampliou a compressão de margens e deteriorou as relações de troca.
Ao longo da cadeia, o ajuste também foi evidente. A retração no preço ao produtor foi acompanhada por deflação de 5,08% no IPCA de leite e derivados, indicando repasse até o varejo. Ainda assim, o alívio nos insumos não foi suficiente para compensar a queda mais acentuada da receita, mantendo o ambiente operacional pressionado.
Esse equilíbrio tende a se deteriorar novamente com a mudança no cenário externo. A expectativa da Farsul é de que os custos de produção do leite voltem a subir, interrompendo a trajetória de queda observada até então. O principal vetor dessa inflexão são os choques geopolíticos associados à guerra no Irã.
A escalada nas cotações do petróleo deve impactar diretamente os combustíveis, com destaque para o óleo diesel, insumo crítico para a atividade. Paralelamente, o segmento de fertilizantes passa a apresentar viés de alta, refletindo a relevância da região em conflito na oferta global desses produtos.
Outro fator de pressão é a valorização recente da soja, que tende a elevar o custo da alimentação animal, um dos principais componentes da estrutura produtiva. A combinação desses três elementos cria um novo ambiente de custos, menos favorável ao produtor.
O resultado é uma mudança relevante na leitura de mercado. Após um período de alívio, a cadeia láctea volta a enfrentar pressão nos custos sem sinais, no mesmo ritmo, de recuperação nos preços ao produtor. Esse descompasso mantém o foco na gestão de eficiência e no monitoramento dos principais insumos, agora sob influência direta do cenário internacional.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Correio do Povo






