O El Niño deixou de ser tratado apenas como uma emergência de safra e passou a ocupar espaço em uma estratégia permanente de gestão de risco no agro brasileiro. Um grupo de trabalho entregou ao Ministério da Agricultura e Pecuária um conjunto de 163 medidas voltadas à safra 2026/27, aos ciclos seguintes e à criação de uma estrutura contínua de acompanhamento climático.
O documento organiza as recomendações em três horizontes diferentes: respostas imediatas para a próxima safra, medidas de adaptação para os próximos anos e ações permanentes dentro do próprio Ministério.
Essa divisão mostra uma mudança de abordagem.
Em vez de concentrar esforços apenas quando os efeitos climáticos já aparecem no campo, a proposta é criar mecanismos capazes de antecipar riscos, orientar decisões e integrar informações antes que as perdas ocorram.
Um centro permanente para acompanhar extremos climáticos
Entre as propostas de longo prazo está a criação de um centro de gestão de riscos climáticos extremos.
A estrutura teria a função de acompanhar e analisar riscos, emitir informações, coordenar medidas e apoiar estratégias de resposta.
O plano prevê ainda um painel agroclimático integrado, reunindo dados climáticos e orientações de manejo.
A ideia é que esse sistema também ajude na articulação entre instituições e estados, além de permitir a avaliação dos resultados das ações implementadas.
O ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, afirmou que eventos desse tipo deixaram de ser vistos como situações excepcionais.
Segundo ele, o Ministério precisa contar com instrumentos permanentes para lidar com um cenário que exige planejamento contínuo.
Seguro rural aparece entre as prioridades
No curto prazo, uma das medidas consideradas prioritárias é o fortalecimento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural, o PSR.
A proposta é garantir disponibilidade de seguro antes do avanço mais intenso do plantio das culturas de verão.
O relatório também recomenda ampliar a assistência técnica, oferecer orientações adaptadas a cada região e intensificar o monitoramento agroclimático durante a safra 2026/27.
A orientação é que os produtores adotem práticas compatíveis com as condições específicas de cada localidade, utilizando tecnologias disponibilizadas pela Embrapa.
Zarc, crédito e seguro devem trabalhar juntos
Para as safras seguintes, o documento propõe uma integração maior entre ferramentas já utilizadas na gestão do risco.
Entre elas estão o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), as Boas Práticas Agrícolas, o crédito rural, o seguro rural e o Proagro.
O objetivo é ampliar o uso de sistemas produtivos mais resilientes e fortalecer a segurança hídrica.
O relatório também defende o aprimoramento do próprio Zarc, aproximando a informação climática das decisões financeiras e produtivas no campo.
Essa integração passa a ser uma das peças centrais do modelo sugerido pelo grupo de trabalho.
Pastagens e sistemas produtivos entram na estratégia
Outro eixo apontado pelo relatório é a aceleração do Plano ABC+ e do Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas em Sistemas de Produção Agropecuária e Florestal Sustentáveis, o Caminho Verde.
Segundo Bruno Leite, coordenador do grupo de trabalho, essas iniciativas podem ampliar a adoção de tecnologias de produção mais resilientes, combinadas com assistência técnica, capacitação e financiamento.
A proposta conecta adaptação climática à forma como os sistemas produtivos são manejados no campo.
Em vez de tratar o risco apenas como uma questão meteorológica, o documento incorpora também práticas de produção, uso do solo e capacidade de resposta dos produtores.
163 medidas para reduzir vulnerabilidades
O Grupo de Trabalho sobre El Niño foi criado pelo Decreto nº 928/2026 e reuniu representantes de cinco secretarias do Mapa, além do Inmet e da Embrapa.
Uma de suas atribuições foi identificar regiões e cadeias produtivas mais vulneráveis aos efeitos do fenômeno.
A Embrapa apresentou ao grupo as 163 medidas que passaram a compor a base das recomendações de prevenção, adaptação e redução de riscos.
As ações não se limitam à safra 2026/27.
O desenho apresentado ao Ministério busca criar uma estrutura que continue funcionando nos ciclos seguintes, com monitoramento, alertas, coordenação institucional e ferramentas de gestão.
Para o agro brasileiro, o ponto central do relatório está justamente aí: preparar-se para eventos climáticos extremos deixa de ser apenas uma resposta pontual e passa a integrar o planejamento permanente da produção.
*Producido por eDairyNews, con información publicada por O Presente Rural






