Leite pode parecer um alimento cotidiano e moderno, mas uma nova evidência científica mostra que ele já fazia parte da rotina alimentar de povos nômades da Eurásia há mais de 2.500 anos.
Um estudo internacional revelou, de forma inédita e direta, que os citas — conhecidos por sua mobilidade, habilidade equestre e domínio das estepes — consumiam leite de ruminantes e, em pelo menos um caso confirmado, leite de égua.
A descoberta vem da análise de algo aparentemente banal, mas biologicamente valioso: o cálculo dentário, a placa mineralizada que se acumula nos dentes ao longo da vida. Segundo os pesquisadores, esse material funciona como um verdadeiro arquivo microscópico, capaz de preservar proteínas alimentares por milênios.
O estudo, publicado na revista científica PLOS One, analisou o cálculo dentário de 28 indivíduos associados à cultura cita, encontrados em dois importantes sítios arqueológicos: Bilsk, na atual Ucrânia, e Mamai-Gora, na região de Zaporozhie. Os restos humanos datam de um período entre os séculos VIII e III antes de Cristo, quando os citas dominavam a estepe pôntico-cáspia.
De acordo com a pesquisa, a equipe liderada por Jaruschka Pecnik e Shevan Wilkin, das universidades de Basileia e Zurique, utilizou técnicas de paleoproteômica para identificar proteínas preservadas nos depósitos dentários. Esse método permite reconhecer assinaturas moleculares específicas de alimentos consumidos ao longo da vida, mesmo em contextos arqueológicos muito antigos.
Os resultados trouxeram evidências claras do consumo de leite e derivados de ruminantes como bovinos, ovinos e caprinos. Em seis dos indivíduos analisados, foram identificadas proteínas lácteas compatíveis com esses animais. Para os pesquisadores, trata-se da primeira confirmação direta, baseada em biomoléculas, de que o leite fazia parte da dieta cita.
O achado mais surpreendente, no entanto, veio de um único indivíduo, no qual foi identificada proteína específica de leite de égua. Até então, o consumo desse tipo de leite pelos citas era mencionado apenas em fontes históricas e relatos antigos, sem comprovação científica direta. A análise do cálculo dentário muda esse cenário, transformando uma hipótese histórica em evidência empírica.
Segundo os autores do estudo, essa descoberta amplia a compreensão sobre o modo de vida dos citas e reforça a ideia de que se tratava de um povo culturalmente diverso. Pesquisas recentes já indicavam que os citas não formavam um grupo homogêneo, mas sim uma rede de comunidades nômades com múltiplas origens geográficas, práticas econômicas variadas e estratégias adaptadas ao ambiente das estepes.
O consumo de leite, nesse contexto, não era apenas uma escolha alimentar, mas parte de um sistema mais amplo de manejo animal e sobrevivência em regiões de clima extremo. Produtos lácteos oferecem alta densidade nutricional, são relativamente fáceis de transportar quando fermentados e se adaptam bem a estilos de vida móveis, características essenciais para populações nômades.
Embora o estudo não diferencie, em todos os casos, se o leite era consumido fresco ou processado, os pesquisadores destacam que a presença das proteínas indica contato direto e recorrente com esses alimentos ao longo da vida. Isso sugere que o leite e seus derivados tinham um papel estrutural na dieta, e não apenas ocasional.
Os achados também contribuem para um debate mais amplo sobre a história do consumo de leite na humanidade. Ao invés de um hábito restrito a sociedades agrícolas sedentárias, o estudo reforça que o leite esteve presente em diferentes formas de organização social, incluindo comunidades nômades altamente móveis.
Para além do interesse acadêmico, a pesquisa oferece uma narrativa curiosa e acessível: séculos depois de desaparecerem como cultura, os citas ainda contam sua história — não por meio de textos ou monumentos, mas por vestígios invisíveis preservados nos dentes. E entre essas histórias silenciosas, o leite ocupa um lugar inesperado e revelador.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Tribuna do Sertão






