As raças sintéticas de gado leiteiro Karan Fries e Vrindavani passaram a integrar oficialmente o registro nacional da Índia, em uma iniciativa que reforça a estratégia do país para ampliar a produção de leite e fortalecer sua base genética pecuária.
Ambas apresentam potencial produtivo superior a 3.000 kg de leite em cerca de 10 meses de lactação, desempenho acima do observado em muitas raças indígenas, cuja média varia entre 1.000 e 2.000 kg no mesmo período.
O reconhecimento foi conduzido no âmbito do trabalho do Indian Council of Agricultural Research (ICAR), que busca equilibrar aumento de produtividade, adaptação às condições locais e preservação genética. A medida ocorre em um contexto de crescente pressão sobre os sistemas agropecuários, marcada por desafios climáticos, demanda alimentar elevada e necessidade de eficiência produtiva em um dos maiores mercados consumidores do mundo.
Com a inclusão das duas novas raças sintéticas, a Índia passou a contabilizar 246 raças oficialmente registradas de animais e aves, sendo 242 indígenas e quatro sintéticas. O número evidencia a dimensão do programa nacional de reconhecimento genético, que serve de base para políticas públicas, programas de melhoramento e estratégias regionais de desenvolvimento da pecuária.
Os certificados de registro foram entregues pelo ministro da Agricultura da Índia, Shivraj Singh Chouhan, durante cerimônia promovida pelo ICAR-National Bureau of Animal Genetic Resources (ICAR-NBAGR). No mesmo evento, outras 16 raças de animais e aves receberam reconhecimento formal, majoritariamente indígenas, reforçando a continuidade do programa de valorização dos recursos genéticos locais.
Segundo o ICAR, o registro oficial vai além do reconhecimento técnico. Ele cria respaldo legal, permite a formulação de programas específicos por raça e região e facilita a implementação de esquemas governamentais voltados à pecuária. Trata-se de um instrumento que conecta ciência, política pública e planejamento produtivo.
As chamadas raças sintéticas resultam de cruzamentos planejados, com o objetivo de combinar alto potencial produtivo, maior adaptação às condições ambientais e ganhos genéticos mais rápidos e previsíveis. No caso indiano, a estratégia reflete a busca por animais mais produtivos sem depender exclusivamente de raças exóticas puras, que nem sempre apresentam bom desempenho em ambientes tropicais ou sistemas extensivos.
A raça Karan Fries foi desenvolvida pelo National Dairy Research Institute (NDRI), localizado em Karnal, no estado de Haryana. Ela resulta do cruzamento entre vacas da raça indígena Tharparkar e touros Holstein-Friesian, uma das raças leiteiras mais produtivas do mundo. A proposta do programa foi aliar volume de produção com maior resiliência às condições locais, reduzindo riscos produtivos e perdas no campo.
Já a raça Vrindavani foi desenvolvida pelo ICAR-Indian Veterinary Research Institute (IVRI), em Bareilly, no estado de Uttar Pradesh. Sua composição genética combina três raças europeias de alta aptidão leiteira — Holstein-Friesian, Brown Swiss e Jersey — com a raça indígena Hariana. O modelo busca preservar características de rusticidade e resistência, ao mesmo tempo em que eleva o desempenho produtivo.
Apesar do avanço das raças sintéticas, o governo indiano reforçou que a conservação das raças indígenas segue como prioridade estratégica. Durante o evento, o ministro Chouhan destacou que o país trabalha simultaneamente no desenvolvimento de novas raças e na preservação do patrimônio genético local, especialmente diante dos impactos das mudanças climáticas. Segundo ele, a pecuária terá papel central no plano nacional de desenvolvimento conhecido como “Viksit Bharat”.
O diretor-geral do ICAR, M. L. Jat, também ressaltou que a conservação dos recursos genéticos existentes é essencial para garantir segurança produtiva no longo prazo e capacidade de resposta a cenários climáticos adversos.
Entre as outras raças reconhecidas na cerimônia estão bovinos como Medini e Rohikhandi, o búfalo Melghati, as cabras Palamu e Udaipuri, além de aves e variedades de patos e gansos de diferentes estados indianos. Também foi registrada uma raça sintética de ovinos, a Avishaan, originária do estado de Rajasthan.
O ICAR informou que o processo de registro de raças ocorre desde 2008 e pode levar de dois a cinco anos até a conclusão, envolvendo critérios técnicos rigorosos e validações científicas. Durante a cerimônia, também foram concedidos prêmios de conservação a indivíduos e instituições que atuam na preservação de raças indígenas, sinalizando que produtividade e conservação caminham de forma complementar.
Ao reconhecer oficialmente raças sintéticas com alto rendimento leiteiro, a Índia sinaliza ao mercado global que genética segue sendo um pilar estratégico para aumentar eficiência, fortalecer a segurança alimentar e sustentar o crescimento da cadeia do leite em um cenário de demanda crescente.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de CompreRural






