A água é um recurso natural de vital importância para a vida e sua disponibilidade limitada exige uma gestão responsável.
A Pegada Hídrica ou água virtual, de um setor é definida como o volume de água consumido, direta ou indiretamente, para produzir um determinado produto.
A Pegada Hídrica ou água virtual, de um setor é definida como o volume de água consumido, direta ou indiretamente, para produzir um determinado produto.

A água é um recurso natural de vital importância para a vida e sua disponibilidade limitada exige uma gestão responsável. Nesse contexto, a Pegada Hídrica (PH), emerge como uma ferramenta fundamental para a gestão ambiental, uma vez que possibilita o rastreamento eficaz e a comunicação dos impactos das atividades humanas no uso da água.

Em 2002, o professor A. Y. Hoekstra introduziu um novo indicador destinado a medir o consumo de água em bens e serviços utilizados pelos habitantes de um país, considerando o comércio internacional e abrangendo toda a cadeia de produção. Posteriormente, em 2014, um documento de importância internacional foi lançado para validar a pegada hídrica como uma ferramenta eficaz na gestão de recursos hídricos.

A ISO 14046:2014 desempenha um papel crucial ao estabelecer princípios, requisitos e diretrizes para a avaliação da pegada hídrica de produtos, processos e instituições. Pertencendo à família das normas ISO 14000, que orientam a gestão ambiental nas empresas, essa norma se destaca como um instrumento essencial na regulamentação de políticas privadas. Dessa forma, ela reforça a credibilidade dessa metodologia, como destacado por Ferrer e Viegas (2014).

A Pegada Hídrica ou água virtual, de um setor é definida como o volume de água consumido, direta ou indiretamente, para produzir um determinado produto. Deve ser abrangente, contemplando todos os aspectos e impactos ambientais significativos ao longo do ciclo de vida do produto, desde a extração da matéria-prima até o descarte final.

E, desde a sua criação, no encontro internacional de especialistas em comércio de água virtual realizado em dezembro de 2002 na Holanda, essa metodologia pode ser aplicada em vários setores, como aliado à Gestão Ambiental.

Classificação da Pegada Hídrica

A pegada hídrica, de acordo com Hoekstra et al. (2011), é uma métrica que se divide em três partes: azul, verde e cinza, e a soma das três é chamada de “água virtual” de um produto. Na Figura 1 é apresentado um esquema de como acontece a classificação. Fonte: Adaptado de Abapa, 2020.

Figura 1: Classificação das Pegadas Hídricas

Pegada Hídrica em Laticínios

A pegada hídrica em laticínios refere-se à quantidade total de água necessária para produzir um determinado produto lácteo, levando em consideração todas as fases da cadeia de produção, desde a alimentação para o gado até o processamento do leite e a fabricação final do produto. Esta avaliação inclui tanto a água direta quanto a água indireta usada ao logo de todo o ciclo de vida do produto. Algumas etapas da PH em laticínios estão descritas na Figura 2. Fonte: Dos autores, 2024.

Figura 2: Etapas da Pegada Hídrica em Laticínios

De acordo com a Figura 3, os valores médios das pegadas hídricas são: 1.000 litros de água para produzir um litro de leite; 4.600 litros de água para produzir 1 kg de leite em pó e 5.000 litros de água para produzir 1 kg de queijo, conforme citado por Hoekstra (2011). Esses valores destacam as pegadas hídricas associadas à produção de diferentes produtos lácteos, evidenciando a demanda considerável de recursos hídricos envolvida em cada processo de fabricação. Fonte: Dos autores, 2024.

 

O consumo de água é influenciado pela natureza específica de cada indústria, pelas técnicas, processos e equipamentos empregados nas diversas etapas de processamento. Em um estudo realizado por Saraiva et al. (2009), o coeficiente médio de consumo de água foi de 3,2 litros por litro de leite processado. Esses resultados assemelham-se aos achados de Machado et al. (2002), que examinaram indústrias com capacidade de recebimento e processamento de leite entre 10.000 e 20.000 litros por dia, registrando coeficientes de consumo de água variando de 3,0 a 4,5 litros por litro de leite processado. Importante salientar que tais valores não representam a totalidade da pegada hídrica associada à produção de leite, mas apenas uma fração dela. No cálculo foi considerado somente o uso direto de água pela unidade industrial para suas demandas de processamento do produto e higienização.

Contrastando com essas observações, Silva (2006) identificou um coeficiente de consumo de água mais elevado, atingindo 6,1 litros por litro de leite processado em uma pequena indústria de laticínios situada na Zona da Mata mineira. No entanto, em estudo posterior no mesmo laticínio, em períodos distintos, Castro (2007) encontrou um coeficiente médio de consumo de água de 5,7 litros por litro de leite processado. Essa variabilidade destaca a influência de fatores temporais e estruturais no consumo de água em instalações de processamento de laticínios.

De acordo com a pesquisa realizada por Castro (2007), o desperdício de água e a falta de padronização nos procedimentos de higienização são questões críticas identificadas em todos os processos de produção nas indústrias de laticínios. Contudo, por meio da implementação de medidas simples, como a reutilização da água, a padronização dos procedimentos de limpeza e a capacitação e conscientização dos colaboradores, esses problemas podem ser eficazmente atenuados.

Reduzir a produção de resíduos líquidos não apenas preserva o meio ambiente, mas também desempenha um papel central na diminuição da pegada hídrica associada à indústria. A água utilizada em operações como processamento e higienização é um componente significativo da pegada hídrica total.  Ao adotar práticas eficientes de gestão de efluentes, a indústria não apenas contribui para a preservação da qualidade da água, mas também diminui a quantidade de água necessária em suas operações. Isso resulta não apenas em menor demanda por recursos hídricos, mas também em economias substanciais em custos relacionados ao tratamento e uso da água.

Portanto, reduzir os resíduos líquidos na indústria de laticínios revela-se uma estratégia fundamental para a gestão da pegada hídrica, conferindo benefícios significativos tanto em termos ambientais quanto econômicos.

REFERÊNCIAS

ABAPA, Associação Baiana dos Produtores de Algodão, 2020. Disponível em: https://abapa.com.br/mais-noticias/dia-mundial-da-agua-pegada-hidrica/. Acesso em 07 de novembro de 2023.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS – ABNT – NBR ISO 14046:2014 – Gestão Ambiental – Pegada Hídrica – Princípios, requisitos e diretrizes, 2014.

CASTRO, Vanessa Cristina de. Diagnóstico do consumo de água, da geração de efluentes e de resíduos sólidos em um laticínio de pequeno porte. Viçosa, MG, 2007.   

FERRER, M.; VIEGAS, M. HUELLA HÍDRICA: La nueva norma internacional ISO 14046: 2014 y su implementación. CONAMA – Congresso Nacional del Medio Ambiente 2014, Madrid. 2014.

FURLAN, M.; PALHARES, J.C.P., Pegada Hídrica cinza de um sistema de produção de leite, 2017.

HOEKSTRA, A. (2011). The global dimension of water governance: Why the river basin approach is no longer sufficient and why cooperative action at global level is needed, Water 3(1) p.p. 21-46. Twente, Holanda.  

HOEKSTRA, A.Y., CHAPAGAIN, A. K., ALDAYA, M. M., MEKONNEN, M. M. Manual de avaliação da pegada hídrica: estabelecendo o padrão global. Water Footprint Network, 2011.191 p.

ISO 14046 envirommental management: water footprint: principles, requements and guidelines Geneva, Switzerland, 2014.33 p.

MACHADO, R. M. G.; FREIRE, V. H.; SILVA, P. C.; FIGUEREDO, D. V.; FERREIRA, P. E. Controle ambiental em pequenas e médias indústrias de laticínios. Belo Horizonte-MG: Projeto Minas Ambiente, 2002.

SARAIVA, C.B.; MENDONÇA, R.C.S.; SANTOS, A.L.; PEREIRA, D.A. (2009) Consumo de água e geração de efluentes em uma indústria de laticínios. Revista do Instituto de Laticínios Cândido Tostes, Juiz de Fora, v. 64, n. 367, p. 10-18.

 SILVA, D. J. P. Diagnóstico da geração de resíduos e consumo de água em uma indústria de laticínios e desenvolvimento de um sistema multimídia de apoio a decisão. 2006. 88 f. Dissertação (Mestrado em Ciência e Tecnologia de Alimentos) – Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, 2006.


Autoras: Clarice Coimbra Pinto – Pesquisadora do EPAMIG/Insitituto de Laticínios Cândido Tostes
Claudety Barbosa Saraiva – Professora e Pesquisadora do EPAMIG/Insitituto de Laticínios Cândido Tostes

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