Produtor rural é a expressão que define hoje a trajetória de Valdeir, em Patrocínio, Minas Gerais, mas nem sempre foi assim.
No Cerrado Mineiro, na comunidade Morro Alto, ele construiu um caminho que começou com dívida, desemprego e incerteza, e terminou em um sistema produtivo familiar baseado em café e leite, com números claros, decisões técnicas e rotina disciplinada.
A virada começou antes mesmo do casamento. Valdeir conta que foi demitido de uma fazenda onde morava havia seis meses, faltando três meses para se casar. O problema não era apenas perder o emprego, mas enfrentar uma dívida acumulada de 12 salários mínimos — à época, com o salário mínimo em torno de R$ 100. Sem casa pronta e com credores à porta, a prioridade passou a ser sobreviver.
A solução imediata foi erguer uma casa simples, de 30 m², construída em 90 dias. Durante três meses, foi ali que o casal morou enquanto reorganizava a vida. Nesse período, Valdeir relata ter sido chamado de volta para trabalhar na fazenda, o que permitiu retomar renda. O método para sair do buraco foi direto: pagar todo mês, no mesmo dia. “Todo dia três eu trago o dinheiro”, repetiu por seis meses até quitar tudo. O fim da dívida marcou um divisor psicológico e financeiro.
Durante quatro anos e meio como empregado, ele aproveitou tudo o que a roça permitia produzir além do salário. Criava porcos e galinhas, plantava milho, arroz e feijão, reduzia gastos com alimentação e vendia o excedente, inclusive ovos, que viraram renda mensal relevante. A lógica era simples: diminuir despesas para sobrar dinheiro para cumprir compromissos.
O salto estrutural veio com o café. Valdeir fixa a data: 6 de janeiro de 1996, quando plantou 1 hectare. A primeira colheita rendeu 55 sacas, vendidas a R$ 300 cada, num contexto em que o dólar valia R$ 1. Com esse resultado, ele comprou 5 hectares de terra. Para o produtor rural, o café deixou de ser apenas cultura agrícola e passou a ser ferramenta de aquisição de patrimônio.
Anos depois, uma mineradora chegou à região e precisou da área. A negociação resultou em uma permuta, levando a família para a área atual, onde hoje trabalham com café e leite. Foi ali que a atividade deixou de ser “emprego” e passou a ser negócio próprio, com raízes definitivas em Patrocínio.
A estrutura familiar é parte central do sistema. Valdeir e a esposa Ângela têm dois filhos; um trabalha com eles, outro já seguiu caminho próprio. Há três netos e outro a caminho. O filho Paulo é apontado como sucessão: formou-se técnico agrícola e depois engenheiro agrônomo, com os estudos pagos integralmente com renda do leite — “tirado do peito da vaca”, como o pai resume.
No café, a lavoura plantada em 2017 começou a produzir em 2020, com 20 sacas por hectare. A sequência foi marcada por seca, geada e bianualidade: 2020 e 2021 sem colheita, 2022 com pouco volume e 2023 com recuperação para 40 sacas por hectare. A resposta técnica veio com irrigação por gotejo instalada em 2023. No ciclo seguinte, a produtividade saltou para 65 sacas por hectare. Segundo o produtor rural, o investimento se pagou no segundo ano, apesar de desafios práticos como manutenção das mangueiras.
O sistema inclui variedades como Catuaí 99 e Catucaí 785/15, espaçamento de 1,80 m entre ruas e 70 cm entre plantas, colheita mecanizada e certificações como Fair Trade e 4C. O café é comercializado beneficiado, com padrão de 84 a 85 pontos, enquanto a torra fica restrita ao consumo da família.
No leite, a atividade começou em 2008, inicialmente para consumo próprio. A partir de 2012, a decisão foi formar o próprio rebanho, com foco em seleção genética. Hoje, o sistema gira em torno de gado holandês, inseminação artificial desde 2013 e cerca de 150 animais sob manejo, considerando animais do pai e do irmão. A produção diária chega a 1.300 litros.
A alimentação é baseada em silo próprio, produzido em áreas arrendadas, com volume anual de até 1.300 toneladas e custo médio de R$ 155 por tonelada, bem abaixo do preço de mercado. O leite é entregue à Nestlé, com preço variável conforme qualidade e volume. Para Valdeir, o erro mais comum é cortar alimentação quando o preço cai. Ele defende constância e gestão de custo.
A rotina começa por volta das 4h30 e termina perto das 18h. Apesar da intensidade, ele afirma trabalhar com prazer. Crescer mais é possível, mas não a qualquer custo. “Começar às três da manhã e terminar à noite não é vida”, resume.
No Cerrado de Patrocínio, a história mostra como um produtor rural transforma dívida em método, método em terra e terra em produção consistente de café e leite, com disciplina, números e escolhas técnicas — sem atalhos.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de CPG Click Petróleo e Gás






