Rótulos alimentícios raramente são protagonistas na decisão de compra no supermercado, mas carregam informações decisivas para a saúde.
Em meio à rotina acelerada, preço, marca e aparência da embalagem costumam pesar mais do que aquilo que está impresso em letras pequenas. Especialistas alertam que esse comportamento tem consequências diretas no consumo excessivo de açúcar, sódio, gorduras e ultraprocessados.
Entender o que está descrito nos rótulos é um passo fundamental para escolhas mais conscientes. As embalagens reúnem dados obrigatórios definidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), como lista de ingredientes, tabela nutricional, presença de alergênicos, validade e identificação do fabricante, conforme a Resolução nº 259/2002. Ainda assim, grande parte da população não sabe como interpretar essas informações.
“A leitura atenta de rótulos alimentícios é um hábito essencial para o cuidado com a saúde, mas pouco praticado”, afirma a nutricionista Hayane Leite, mestre em Nutrição. Segundo ela, compreender os dados ajuda o consumidor a fazer escolhas mais equilibradas, especialmente quando se compara produtos similares.
Um dos primeiros pontos de atenção é a lista de ingredientes. Hayane explica que os itens aparecem em ordem decrescente de quantidade. “O primeiro ingrediente é o que mais tem no produto. Se açúcar, gordura ou aditivos aparecem logo no início, é um sinal de alerta”, observa. Outro aspecto crítico é a porção indicada na tabela nutricional. Muitas vezes, os valores parecem baixos porque se referem a quantidades menores do que aquelas efetivamente consumidas.
A orientação, segundo a especialista, é priorizar produtos com listas de ingredientes mais curtas, menor teor de sódio e gorduras e maior presença de fibras e proteínas. “Quanto maior o teor de fibras e proteínas, melhor, pois contribuem para a saciedade e para a saúde intestinal”, destaca.
A dificuldade de interpretação não é pontual. A nutricionista Thayani Miranda, especialista em Nutrição Clínica e Funcional, chama atenção para um dado recorrente: oito em cada dez brasileiros não sabem interpretar rótulos corretamente. Para ela, isso amplia o risco de escolhas inadequadas, especialmente entre produtos ultraprocessados.
Thayani lembra que as informações nos rótulos não são opcionais. “Denominação correta do alimento, dados do fabricante, lista de ingredientes, tabela nutricional, alergênicos, presença de glúten ou lactose, validade e orientações de armazenamento são exigências legais”, explica. Se essas informações não estão claras, o produto não deveria estar à venda.
Desde 2022, os rótulos alimentícios passaram a contar com as chamadas lupas frontais, símbolos que indicam excesso de açúcar adicionado, sódio ou gordura saturada. Segundo Thayani, esses alertas facilitaram a leitura rápida. “Produtos com três lupas tiveram queda de cerca de 35% nas vendas após a adoção do modelo. A população está mais atenta”, avalia.
Apesar disso, armadilhas visuais seguem comuns. Fotos de frutas em produtos que não contêm fruta, uso da cor verde para sugerir saudabilidade e termos técnicos pouco compreensíveis são estratégias que confundem o consumidor. Hayane alerta que ingredientes podem aparecer com nomes científicos ou genéricos, dificultando a identificação de aditivos indesejáveis.
Termos como light, diet e zero também geram confusão. Thayani explica que produtos light apresentam redução mínima de 25% de algum nutriente em relação ao convencional, enquanto diet indicam ausência total de um componente específico, geralmente açúcar, mas não necessariamente menos calorias. Já zero lactose é indicado para intolerantes, sem relação direta com valor calórico, e zero açúcar pode conter até 0,5 g do nutriente por 100 g ou ml, além de adoçantes artificiais.
O impacto do consumo frequente de ultraprocessados é direto. “Está associado ao aumento de obesidade, hipertensão e diabetes”, afirma Hayane. Segundo Thayani, a leitura correta dos rótulos pode reduzir em até 30% o consumo desses produtos e melhorar em até 40% o controle de doenças crônicas.
Para facilitar, a nutricionista propõe a “regra dos 30 segundos”. Nos primeiros 10 segundos, observar quantas lupas o produto possui e o tamanho da lista de ingredientes. Nos 10 seguintes, avaliar se os três primeiros ingredientes são adequados e se há muitos nomes impronunciáveis. Nos últimos 10, conferir os números por 100 g ou ml: sódio até 600 mg, açúcar até 15 g, gordura saturada até 20 g e, no caso de integrais, pelo menos 3 g de fibras.
A tecnologia também entra como aliada. Aplicativos como Yuka e Desrotulando permitem escanear códigos de barras e acessar avaliações nutricionais. O Desrotulando, criado em 2016, já soma cerca de 4 milhões de downloads. Segundo a nutricionista Carolina Grehs, uma das fundadoras, a base reúne mais de 60 mil produtos, com dados fornecidos por usuários e fabricantes, sempre submetidos à curadoria técnica.
Para os especialistas, ler rótulos alimentícios vai além da curiosidade. “É uma questão de saúde pública, autonomia e consciência alimentar”, resume Thayani. Saber o que se compra não significa restrição absoluta, mas escolha informada — inclusive quando a decisão é consciente por um produto menos saudável.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Folha PE






