Sorvetes estão no centro do movimento estratégico que levou as ações da Nestlé a subirem cerca de 2% na Bolsa de Zurique após a divulgação dos resultados de 2025.
A companhia confirmou a intenção de sair globalmente do negócio, transferindo as operações remanescentes para a Froneri, joint venture da qual detém 50%.
A operação em negociação abrange negócios na Ásia, Canadá e partes da América Latina, incluindo Chile e Peru, além de Malásia e Tailândia. Essas unidades somam aproximadamente US$ 1,3 bilhão em vendas anuais.
No Brasil, a operação já é conduzida pela Froneri e, segundo a empresa, não haverá mudanças locais.
O movimento integra uma reorganização mais ampla. A Nestlé passa a concentrar sua estrutura em quatro pilares que respondem por cerca de 70% das vendas globais: café, petcare, nutrição e alimentos. Para o CEO Philipp Navratil, manter o negócio de sorvetes, descrito como forte, porém pequeno, deixaria de fazer sentido estratégico diante da necessidade de foco e simplificação.
Os números de 2025 ajudam a explicar o ajuste. A receita anual recuou 2%, para US$ 115,80 bilhões, pressionada principalmente por efeitos cambiais. O lucro líquido caiu 17%, para US$ 11,68 bilhões. Em francos suíços, a margem operacional ajustada ficou em 16,1%, dentro do guidance, mas impactada por maiores investimentos em marketing e custos de reorganização.
Em termos orgânicos, contudo, houve crescimento de 3,5% no ano, com aceleração no segundo semestre. O quarto trimestre registrou alta orgânica de 4%, acima das estimativas de mercado. O crescimento foi sustentado por reajustes de preços, especialmente em categorias ligadas a café e cacau, enquanto o crescimento interno real permaneceu em 0,8%.
Por categorias, café avançou 7,3% e confeitos 8,2%, impulsionados por preços e marcas como KitKat. Águas e bebidas premium cresceram 5,3%, enquanto petcare subiu 2,2%. Já pratos prontos e auxiliares culinários recuaram 0,4%.
A companhia projeta crescimento orgânico entre 3% e 4% em 2026, com melhora progressiva da margem operacional ao longo do ano. O recall global de fórmulas infantis realizado em janeiro deve reduzir o crescimento orgânico em cerca de 0,2 ponto percentual. O episódio foi atribuído à presença de cereulide, toxina bacteriana associada a fornecedor externo, e já foi concluído.
Além da saída de sorvetes, a Nestlé iniciou processo para buscar parceiros estratégicos para o negócio de águas e bebidas premium, que inclui marcas como Perrier e San Pellegrino, e mantém meta de economizar 1 bilhão de francos suíços por ano até 2027 por meio de redução de estruturas administrativas e ganhos de eficiência.
Para o mercado, o sinal é claro: menos complexidade e maior disciplina de capital. A venda de sorvetes, nesse contexto, torna-se o divisor entre queda nos resultados contábeis e expectativa de recuperação operacional.






