Território Canastra é o nome da marca coletiva que começa a ganhar forma na Serra da Canastra, em Minas Gerais, com um objetivo claro: proteger a identidade regional, valorizar cadeias produtivas locais e combater o uso indevido do nome “Canastra” por empresas e produtos que não pertencem ao território.
A iniciativa reúne produtores, entidades e lideranças regionais em um movimento que vai além do queijo e do café, mirando um modelo integrado de desenvolvimento econômico, cultural e turístico.
Conhecida internacionalmente pelo queijo artesanal, a Serra da Canastra construiu, ao longo de mais de dois séculos, uma reputação baseada em tradição, saber-fazer e vínculo territorial. Essa identidade foi formalmente reconhecida em 2012, quando a Associação dos Produtores de Queijo Canastra (Aprocan) conquistou o registro de Indicação Geográfica (IG) para o queijo junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). Anos depois, em 2023, o café da região também obteve IG, por meio da Associação dos Cafeicultores da Canastra (Acanastra).
Segundo lideranças locais, essas conquistas impulsionaram valor, visibilidade e diferenciação no mercado. No entanto, o reconhecimento também trouxe um efeito colateral: a apropriação do nome Canastra por marcas, produtos e empresas sem qualquer ligação com a região. É justamente esse cenário que motivou a criação do Território Canastra como uma marca “guarda-chuva”, capaz de proteger não apenas produtos agroalimentares, mas também serviços e atrativos turísticos.
De acordo com João Carlos Leite, presidente do Sicoob Sarom e da Aprocan, conhecido regionalmente como Joãozinho da Canastra, o uso indevido do nome tornou-se recorrente e preocupante. Ele relata que já existem registros de “Canastra” associado a bicicletas, empresas de tecnologia, alimentos industrializados e até produtos comercializados fora do Brasil, sem qualquer vínculo com a Serra. Para Leite, isso dilui a identidade construída ao longo de gerações e prejudica diretamente quem produz no território original.
A proposta do Território Canastra é organizar e qualificar diversas cadeias produtivas sob um mesmo conceito de origem, autenticidade e governança. Além do queijo e do café, a iniciativa pretende incluir mel, própolis verde, charcutaria, cachaça, doces artesanais e azeites, tanto de abacate quanto de oliva. A presença de olivais na região, ainda incipiente, já integra a visão estratégica de diversificação com valor agregado.
O turismo é outro pilar central do projeto. Para os idealizadores, a marca coletiva pode transformar a Serra da Canastra em um dos principais destinos turísticos de Minas Gerais, articulando gastronomia, natureza, cultura e experiência rural. Leite afirma que a organização dessas cadeias, aliada a uma identidade territorial forte, tem potencial para atrair milhões de visitantes e movimentar cifras bilionárias na economia local ao longo do tempo.
O modelo que inspira a iniciativa mineira vem da Europa. Representantes da região buscaram referências no Sul Tirol, também conhecido como Alto Adige, no norte da Itália, onde uma marca coletiva territorial articula produtos, serviços e turismo de forma integrada. Em 2024, uma comitiva liderada pelo Sebrae Minas, com produtores e lideranças da Canastra, visitou a região europeia para conhecer práticas de gestão e promoção associadas à marca territorial.
Segundo Leite, os números do Sul Tirol chamam atenção: com cerca de 1.500 quilômetros quadrados de área agrícola útil, a região recebeu aproximadamente 9 milhões de turistas em 2023. No mesmo período, o Brasil inteiro recebeu cerca de 6 milhões de visitantes internacionais. Para ele, o fortalecimento da marca territorial foi decisivo para esse desempenho, ao conectar produtos, paisagem, serviços e reputação em uma narrativa única.
Atualmente, o Território Canastra está em fase de disseminação da proposta e articulação institucional. O apoio do poder público é considerado estratégico para o reconhecimento formal do território e para a consolidação da governança da marca. A expectativa é realizar, no primeiro trimestre de 2026, um evento de lançamento do pré-projeto, com a presença do governador de Minas Gerais, prefeitos dos 11 municípios envolvidos, vereadores e entidades representativas.
Para as lideranças locais, o engajamento da comunidade já é visível. Leite afirma que a defesa do nome Canastra toca diretamente o orgulho regional e a identidade dos produtores. Ele cita como exemplo a indignação recorrente ao encontrar produtos rotulados como “Canastra” em mercados, mas originários de outras regiões. Para ele, a marca coletiva é uma resposta concreta a esse incômodo histórico e um passo decisivo para garantir que o valor da Canastra permaneça onde foi construído: no território.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Diário do Comércio






