Importações de leite estão no centro da crise que atinge a pecuária leiteira brasileira e já alteram a equação econômica das propriedades, segundo Alexandre Lopes Lacerda, presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Girolando para o triênio 2026-2028.
Ao assumir o cargo em janeiro, o dirigente passou a defender medidas capazes de restabelecer a competitividade em um ambiente onde, nas suas palavras, eficiência isolada deixou de garantir rentabilidade.
Dados do Cepea mostram que o preço pago ao produtor acumulou nove meses consecutivos de queda em 2025, resultando em retração anual de 25,8%. Ainda assim, a desvalorização não é apontada como fator único. O mercado também foi impactado pela entrada recorde de produto estrangeiro desde meados de 2022, principalmente de Uruguai e Argentina, ao mesmo tempo em que a captação nacional avançou 15,4% no acumulado do último ano.
Para Lacerda, a combinação entre oferta crescente e importações de leite no mesmo patamar da queda de preços inviabiliza o lucro dentro das fazendas. Ele afirma que o setor aguarda ações do governo federal, mas não identifica sinais de intervenção. Uma elevação de apenas R$ 0,20 no preço do leite, calcula, poderia injetar mais de R$ 80 milhões por dia na economia.
O dirigente também destaca um desalinhamento relevante na cadeia de valor. Enquanto o leite aparece nas gôndolas próximo de R$ 4, o produtor recebe cerca de R$ 1,50. Ao mesmo tempo, autoridades evitam discutir reajustes sob o argumento de que o produto integra a cesta básica, o que limita mudanças no curto prazo.
Relatos de produtores indicam que a pressão não se restringe a Minas Gerais, principal estado produtor. Conversas recentes com pecuaristas do Sul reforçaram a percepção de um ambiente operacional cada vez mais complexo.
Outro vetor de preocupação é a demanda. A queda no consumo adiciona incerteza ao setor e levou a Girolando a priorizar iniciativas de estímulo ao mercado.
Entre elas está a Megaleite, feira programada para junho, com expectativa de receber mais de 100 mil visitantes e movimentar cerca de R$ 400 milhões em negócios. O evento pretende aproximar o público urbano da cadeia produtiva e ampliar a percepção sobre a presença do leite em itens cotidianos, de alimentos industrializados a suplementos e medicamentos.
A estratégia inclui ainda incentivar a produção de derivados, como o queijo artesanal. Na avaliação de Lacerda, ampliar o processamento ajuda pequenos produtores ao reduzir o impacto da alta perecibilidade do leite e expandir alternativas de comercialização.
No campo regulatório, o presidente da Girolando classifica a concorrência externa como desigual. Ele observa que o leite brasileiro atende a exigências sanitárias que não seriam aplicadas de forma equivalente a alguns países exportadores. Como exemplo, cita o uso de farinha de osso em rações no exterior, prática proibida no Brasil por causa da vaca louca.
Apesar do cenário adverso, a entidade registrou em 2025 o maior número de registros genealógicos de sua história, com 113.690 anotações, alta de 5% ante 2024. O resultado reforça a aposta em genética, seleção genômica, transferência de tecnologia e capacitação para elevar produtividade, especialmente entre pequenos produtores. A demanda internacional pela raça também cresce, com destaque para as Filipinas, que produzem apenas 1% do leite que consomem.
Gestão eficiente e interlocução com o poder público seguem como prioridades para 2026, em um contexto que também direciona atenção às eleições de outubro. Para Lacerda, o agronegócio permanece como motor econômico e precisa de condições para agregar valor. Sem apoio e incentivos consistentes, conclui, a continuidade do crescimento fica em risco.
Escrito para o eDairyNews, com informações de Canal Rural






