O whey que muita gente descarta ao abrir um iogurte não é defeito, excesso de água nem sinal de produto estragado.
É, na prática, uma das partes mais nutritivas do alimento — e jogá-lo fora equivale a desperdiçar uma fração relevante do que se está consumindo.
A cena é comum: o pote é aberto, surge um líquido translúcido na superfície e, por instinto, ele vai direto para a pia. O gesto parece lógico, mas está baseado em um equívoco difundido. Esse líquido é o whey, também conhecido como soro do leite, resultado natural do processo de fermentação.
Segundo explica o médico britânico Amir Khan, clínico geral que costuma abordar temas de nutrição em suas redes sociais, o iogurte passa por uma separação natural quando repousa. As proteínas mais densas do leite, sobretudo a caseína, se depositam no fundo, enquanto o soro sobe à superfície. O fenômeno é mais visível em iogurtes menosAlvoar Lácteos, processados, artesanais, gregos ou com menor uso de estabilizantes.
O mesmo processo ocorre em queijos frescos e de alta umidade, como cottage, ricota, requeijão, quark e queijo fresco. Nesses casos, o whey também está presente como parte da estrutura natural do alimento, não como um resíduo indesejado.
É importante diferenciar situações. No caso da muçarela vendida submersa em líquido, o conteúdo da embalagem deve, sim, ser descartado, pois trata-se de salmoura adicionada propositalmente para conservação, textura e sabor. Já queijos como burrata e stracciatella incorporam o soro à própria composição, entregando o whey sem que haja separação visível.
Voltando ao iogurte, Amir Khan é direto ao tranquilizar consumidores: o produto não está estragado, o líquido não é gordura e não representa qualquer risco à saúde. Pelo contrário. É justamente no whey que se concentram proteínas solúveis, cálcio, potássio e vitaminas do complexo B. Além disso, o soro do leite contribui para a saúde da microbiota intestinal, reforçando o valor funcional do alimento.
Misturar novamente o whey ao iogurte antes do consumo é, portanto, a forma mais correta de aproveitar integralmente seus nutrientes. Mesmo que o aspecto visual não agrade a todos, trata-se de uma característica natural, não de um defeito industrial.
Há ainda um outro ponto pouco discutido: o desperdício econômico. O whey descartado diariamente em milhões de cozinhas é, essencialmente, a mesma matéria-prima que, após processamento industrial, dá origem à popular proteína whey em pó, amplamente vendida como suplemento nutricional. Em outras palavras, o consumidor joga fora em casa aquilo que paga caro para comprar em embalagens chamativas na seção de suplementos.
Isso não significa que o whey natural substitua suplementos proteicos em contextos específicos, mas ajuda a colocar em perspectiva o valor nutricional real dos alimentos lácteos básicos, muitas vezes subestimados.
Para o consumo cotidiano, a orientação é simples: se o líquido se formou naturalmente sobre o iogurte, ele pertence ali. Misture, consuma e aproveite o alimento como um todo. O gesto reduz desperdício, preserva nutrientes e aproxima o consumidor de uma relação mais informada com o que está no prato — ou no pote.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Wellness – Máxima






