Riscos estão se consolidando como o principal vetor de decisão na indústria global de alimentos e bebidas, à medida que inflação, lacunas de mão de obra, disrupção tecnológica e tensões geopolíticas passam de ameaças pontuais a forças estruturais.
Levantamento da consultoria Argon & Co com mais de 800 executivos C-suite indica que três pressões permanecem no topo da agenda: inflação de custos, desafios trabalhistas e transformação tecnológica. O conjunto altera prioridades de investimento e obriga fabricantes a revisar redes de suprimento e estratégias de longo prazo.
A inflação operacional deixou de ser um problema tático para se tornar um fator estratégico. Custos de insumos elevados, commodities voláteis e mercados imprevisíveis estão levando empresas a acelerar automação, reavaliar fornecedores e redesenhar cadeias para suportar choques recorrentes. O movimento sinaliza uma transição de respostas emergenciais para planejamento estrutural.
No capital humano, o que parecia escassez temporária evoluiu para mudança persistente. Funções críticas estão mais difíceis de preencher e a disputa por profissionais qualificados se intensifica. Plantas industriais convivem com vagas crônicas, equipes logísticas operam sob pressão e trabalhadores exigem melhores salários, segurança e perspectivas de carreira. O efeito imediato recai sobre produtividade e resiliência.
A tecnologia avança como fator competitivo, mas também amplia a complexidade operacional. Inteligência artificial, robótica, digital twins e analytics passam a sustentar operações modernas, porém a integração com sistemas legados eleva custos e exige novas competências organizacionais. A velocidade das mudanças supera a capacidade de absorção de muitas empresas.
A digitalização amplia ainda a exposição a ataques cibernéticos. Com fábricas e cadeias cada vez mais conectadas, uma violação pode interromper produção, comprometer sistemas de segurança alimentar ou expor dados sensíveis, colocando a resiliência digital no mesmo patamar da segurança física.
Entre os riscos menos priorizados, a geopolítica emerge como potencial fator de ruptura. Segundo a Argon & Co, o desalinhamento entre consciência e ação ainda é visível. Disrupções recentes elevaram os preços do cacau e levaram fabricantes como Pladis e Nestlé a reduzir o teor do ingrediente em certos produtos para administrar custos e disponibilidade.
O ambiente descrito como “perma-crise” reforça a necessidade de antecipação. Para a consultoria, a resiliência deve ser construída antes da pressão sobre margens ou suprimentos.
Mudanças frequentes na liderança também começam a gerar fadiga organizacional. A atenção executiva tende a migrar para decisões reativas de curto prazo, fragmentando programas de transformação e limitando ganhos estruturais.
O desempenho futuro dependerá da capacidade de alinhar estratégia, talentos, tecnologia e visibilidade da cadeia. Empresas que fortalecerem planejamento, desenvolverem a força de trabalho e adotarem soluções que ampliem eficiência tendem a navegar melhor a volatilidade.
Mais do que reagir a choques externos, o setor passa a ser definido pelas decisões tomadas agora. Construção de capacidades, coerência operacional e gestão proativa dos riscos despontam como diferenciais para sustentar crescimento em um cenário menos previsível.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Dairy Reporter






