A vaca leiteira de brinquedo que prometia ensinar crianças a ordenhar parece hoje uma invenção improvável, mas nos anos 1970 ela foi lançada com ambição industrial e criatividade típica de uma década sem limites para a cultura pop.
Quem cresceu naquela época teve à disposição uma infinidade de brinquedos que marcaram gerações. Slinkys desciam escadas infinitas, caminhões Tonka atravessavam quintais como se fossem canteiros de obras, enquanto Barbie e G.I. Joe dominavam o imaginário infantil. Em meio a esse cenário competitivo, surgiu uma proposta curiosa: a Milky the Marvelous Milking Cow, uma vaca leiteira de brinquedo que “produzia leite”.
Lançada em 1978 pela Kenner Toys, a Milky era uma vaca de plástico desenhada para simular o processo de ordenha. Segundo a descrição da época, a brincadeira funcionava assim: a criança mergulhava a cabeça da vaca em água, apertava a cauda e, graças a pastilhas especiais colocadas no interior do brinquedo, um líquido branco escorria pelas tetas, imitando o leite.
Não se tratava, evidentemente, de leite de verdade. E, como muitos adultos da época alertavam, não era exatamente uma boa ideia beber o conteúdo produzido pela vaca leiteira de brinquedo. Ainda assim, a proposta buscava algo além do simples entretenimento: aproximar crianças urbanas do universo rural, ainda que de forma caricata.
Especialistas em cultura pop costumam apontar que os anos 1970 foram férteis em brinquedos experimentais. Era uma época em que as normas de segurança eram mais flexíveis, e a imaginação dos fabricantes frequentemente se sobrepunha à prudência. Nesse contexto, a Milky não era exatamente uma aberração, mas sim um produto coerente com seu tempo.
O problema é que 1978 também foi o ano em que a própria Kenner lançou a primeira linha oficial de brinquedos de Star Wars. O impacto foi imediato e avassalador. Estima-se que cerca de 40 milhões de unidades dos bonecos e naves da saga tenham sido vendidas em pouco tempo, redefinindo o mercado global de brinquedos.
Diante desse fenômeno, a vaca leiteira de brinquedo acabou relegada ao segundo plano. Enquanto Luke Skywalker e Darth Vader dominavam as prateleiras, Milky foi rapidamente retirada de circulação. Não houve relançamentos, nem versões atualizadas, tampouco um resgate nostálgico à altura de outros brinquedos da época.
Hoje, a Milky the Marvelous Milking Cow é lembrada principalmente como uma curiosidade histórica. Colecionadores de brinquedos vintage ainda a citam em listas de produtos mais estranhos ou esquecidos do século XX, sempre com uma mistura de humor e espanto. Para muitos, ela representa uma tentativa precoce de transformar o universo agropecuário em brinquedo educativo — algo que só ganharia força décadas depois, com propostas mais sofisticadas.
Do ponto de vista simbólico, a vaca leiteira de brinquedo também reflete a distância crescente entre o consumidor urbano e a produção de alimentos. A ordenha, apresentada como uma brincadeira quase mágica, já indicava como o leite começava a ser percebido mais como produto final do que como resultado de um processo produtivo complexo.
Embora tenha fracassado comercialmente, a Milky ajuda a contar uma história maior: a de como o leite, a pecuária e o campo foram sendo reinterpretados pela indústria cultural. Mesmo sem sucesso, o brinquedo antecipou debates atuais sobre educação alimentar, origem dos alimentos e conexão com o meio rural.
Quase cinco décadas depois, a vaca leiteira de brinquedo segue fora das prateleiras, mas viva na memória de quem se interessa por cultura pop, história do consumo e curiosidades do setor. Um lembrete de que, no competitivo mercado de brinquedos — assim como no agro — criatividade nem sempre garante longevidade.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Oddee






