ESPMEXENGBRAIND
9 jan 2026
ESPMEXENGBRAIND
9 jan 2026
Com déficit de 3,7 milhões t, a carne bovina coloca a China diante da mesma escolha feita no leite: importar ou subsidiar 🥩
Assim como no leite, a carne bovina pode entrar na agenda de subsídios da China diante do déficit estrutural. 🧮
Assim como no leite, a carne bovina pode entrar na agenda de subsídios da China diante do déficit estrutural 🧮

A carne bovina voltou ao centro do debate estratégico na China, levantando a mesma pergunta que marcou o setor de leite: o governo recorrerá a subsídios para sustentar a produção interna diante de um déficit estrutural crescente?

A carne bovina tornou-se um dos temas mais sensíveis da política agroalimentar da China, em um momento em que o país combina crescimento do consumo, déficit estrutural de oferta e medidas protecionistas para ganhar tempo e reorganizar sua produção interna. A salvaguarda anunciada pelo Ministério do Comércio no fim de 2025, com tarifa adicional de 55% sobre volumes que excederem as cotas de importação, expôs uma pergunta central: a China seguirá o caminho já trilhado no leite e passará a subsidiar também a produção de carne bovina?

Segundo fontes oficiais chinesas, a medida foi resultado de uma investigação iniciada no final de 2024, após reclamações de pecuaristas e frigoríficos locais sobre a dificuldade de competir com preços e padrões da carne importada. O desenho da política é claro: garantir 2,7 milhões de toneladas via cotas e aplicar a tarifa de 55% apenas sobre o excedente, oferecendo ao setor doméstico uma janela de cerca de três anos para tentar reduzir a distância em relação a gigantes exportadores como Brasil, Austrália, Índia, Estados Unidos e Argentina.

Apesar do impacto simbólico da tarifa, o efeito prático é assimétrico. O Brasil, maior fornecedor mundial de carne bovina, detém a maior cota individual, com 1,1 milhão de toneladas — mais que o dobro da Argentina e quase sete vezes a dos Estados Unidos. Isso significa que, no curto prazo, a competitividade brasileira permanece relativamente preservada, embora sob crescente pressão por preços.

O pano de fundo dessa decisão é o salto extraordinário do consumo chinês. Entre 2014 e 2024, enquanto o consumo mundial de carne bovina cresceu cerca de 7,8%, na China o avanço foi de impressionantes 78%. Dados compilados por centros de pesquisa internacionais mostram que o consumo chinês passou de 6,5 milhões para 11,5 milhões de toneladas no período, um ritmo dez vezes superior à média global.

Esse movimento está diretamente associado ao aumento do poder aquisitivo. Em duas décadas, o PIB per capita chinês, medido por paridade de poder de compra, multiplicou-se várias vezes, transformando a carne bovina — historicamente rara na dieta local — em um item cada vez mais presente nas mesas urbanas. O relato de especialistas que acompanham o mercado desde os anos 1990 reforça esse ponto: o que antes aparecia em pequenas porções tornou-se um produto aspiracional de consumo recorrente.

Com a demanda em expansão, a China passou a importar volumes crescentes de carne bovina e até animais vivos. Nesse processo, o Brasil foi o principal beneficiado. As exportações brasileiras para o mercado chinês saltaram de menos de meio bilhão de dólares em 2015 para mais de US$ 8 bilhões em 2025, consolidando o país como fornecedor dominante. Ao longo desse período, a China também reduziu gradualmente sua dependência das compras indiretas via Hong Kong, passando a importar de forma direta.

O problema, no entanto, permanece estrutural. Projeções internacionais indicam que, em 2026, a China deverá consumir cerca de 11,2 milhões de toneladas de carne bovina, enquanto a produção interna deve ficar em torno de 7,5 milhões. O déficit estimado de 3,7 milhões de toneladas supera o volume coberto pelas cotas de importação, deixando aproximadamente 1 milhão de toneladas “descobertas”.

Esse desequilíbrio cria um dilema econômico. Para evitar uma escalada de preços no varejo, o país terá de optar entre acelerar fortemente a produção doméstica ou pressionar exportadores a reduzir preços e margens. Do lado brasileiro, já se discute a possibilidade de negociação e transferência de cotas entre países que não utilizam integralmente seus volumes, como os Estados Unidos. Ainda assim, analistas apontam que a tendência é de aumento da pressão sobre frigoríficos e pecuaristas exportadores.

A capacidade da China de responder com produção interna é o grande ponto de interrogação. O país enfrenta limitações conhecidas: escassez de água, restrição de áreas para pastagens, alto custo de alimentação animal e pouca tradição histórica em pecuária de corte em larga escala. Observadores que visitaram sistemas produtivos chineses nas últimas décadas relatam estruturas atrasadas e forte dependência de apoio estatal, especialmente nos segmentos de leite e carne.

Ao mesmo tempo, há sinais de mudança. A política de autossuficiência alimentar voltou ao centro do planejamento estratégico chinês, acompanhada por programas de recuperação ambiental, ampliação de pastagens em regiões semiáridas e investimentos em tecnologia. Áreas como Mongólia Interior e Xinjiang concentram projetos de criação e engorda, justamente para evitar competição direta com a agricultura de grãos.

Nesse contexto, a pergunta sobre subsídios ganha força. Se a China decidiu apoiar fortemente sua cadeia leiteira no passado, muitos se perguntam se a carne bovina seguirá o mesmo caminho. A resposta terá impactos diretos sobre o comércio internacional, os preços globais e a posição de países exportadores.

As incertezas são ampliadas pelas divergências nas estatísticas globais de produção e consumo, com diferenças significativas entre estimativas de organismos internacionais. Para o mercado, mais do que os números absolutos, o que importa é a direção da política chinesa. E, nesse momento, a carne bovina está no centro de uma equação que mistura segurança alimentar, renda, meio ambiente e poder geopolítico.

*Escrito para o eDairyNews, com informações de Grupo Amanhã

Te puede interesar

Notas Relacionadas

Faça login na minha conta