O café da manhã saudável vem se consolidando como um dos principais vetores de transformação do consumo alimentar no Brasil, com impactos diretos sobre a organização das gôndolas, as estratégias de fabricantes e o posicionamento dos lácteos no varejo.
Supermercados e indústrias têm ajustado categorias, comunicação e sortimento para atender a um consumidor que associa praticidade à saudabilidade e demonstra menor tolerância a produtos ultraprocessados.
As diretrizes do Guia Alimentar para a População Brasileira, lançado pelo Ministério da Saúde em 2006 e reeditado em 2014, seguem como referência central nesse movimento. O documento orienta que a base da alimentação seja composta por alimentos in natura ou minimamente processados — recomendação que se estende ao café da manhã. “Os alimentos in natura e minimamente processados apresentam praticidade e saudabilidade. Descascar é mais fácil que desembalar”, afirma Fabiana Poltronieri, nutricionista e diretora da Associação Brasileira de Nutrição (Asbran).
Essa mudança de percepção não se limita ao discurso institucional. Segundo Roberto Nascimento Oliveira, professor de Gestão Comercial no Varejo da ESPM, o momento do café da manhã passa por uma transformação estrutural. Ele observa que a busca por ingredientes naturais, redução de açúcar e maior densidade nutricional está entre os atributos mais valorizados pelo consumidor. “A alimentação saudável revolucionou as prateleiras”, resume o docente, ao destacar que saúde e bem-estar passaram a orientar decisões de compra desde o primeiro momento do dia.
Um dos exemplos mais visíveis dessa transição está na categoria de cereais matinais. Oliveira aponta que marcas tradicionais têm promovido reformulações para se adequar às novas expectativas. Entre as principais mudanças estão a redução de açúcares e corantes artificiais, a adição de fibras e proteínas, versões integrais ou orgânicas e a adoção de embalagens menores, com porções mais controladas. Ainda assim, a categoria enfrenta crescente escrutínio por parte de consumidores e profissionais de saúde, sobretudo quando associada ao consumo diário no café da manhã.
No contexto doméstico, o planejamento alimentar aparece como um facilitador da adoção do café da manhã saudável. Para Rafaella Guimarães Camargo, docente da área de Nutrição do Senac São Paulo, a organização prévia da semana é decisiva. Entre as estratégias citadas estão higienizar e porcionar frutas, cozinhar ovos para consumo rápido e preparar combinações simples, como frutas com aveia e iogurte natural, para os dias de maior correria.
Essa lógica de conveniência saudável cria oportunidades claras para o varejo. Rafaella destaca que os supermercados podem — e devem — traduzir as recomendações do Guia Alimentar em experiências de compra mais didáticas. Entre as ações possíveis estão a criação de ilhas temáticas com frutas, lácteos naturais, pães artesanais e grãos; o uso de sinalização educativa com mensagens objetivas; a oferta de degustações e oficinas rápidas; e a disponibilização de materiais que ensinem o consumidor a ler rótulos e evitar ultraprocessados.
Do ponto de vista nutricional, a preferência por alimentos in natura é reforçada pela crítica direta aos ultraprocessados. Fabiana Poltronieri alerta que produtos como cereais açucarados, biscoitos recheados, pães industrializados, iogurtes adoçados ou aromatizados, margarinas, embutidos e achocolatados concentram açúcares, sódio, gorduras saturadas, aditivos e conservantes, oferecendo baixo valor nutricional quando comparados a alimentos frescos ou minimamente processados.
É nesse cenário que os lácteos ganham centralidade estratégica. Leite pasteurizado e iogurte natural são citados entre as bebidas e alimentos recomendados para o café da manhã saudável, ao lado de frutas, ovos, raízes, tubérculos, oleaginosas e sementes. Para o setor lácteo, a tendência reforça a valorização de produtos simples, com rótulos curtos, menor grau de processamento e comunicação alinhada à naturalidade e à funcionalidade nutricional.
Ao mesmo tempo, o movimento impõe desafios. Iogurtes adoçados e bebidas lácteas com alto teor de açúcar passam a disputar espaço com versões naturais, pressionando fabricantes a rever portfólios, formulações e posicionamento. A disputa deixa de ser apenas por preço ou conveniência e passa a ser por legitimidade nutricional no cotidiano do consumidor.
Para Fabiana Poltronieri, a escolha por alimentos diretamente obtidos de plantas ou animais, com mínimas alterações, é decisiva para a prevenção de doenças associadas ao consumo excessivo de ultraprocessados, como obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, hipertensão e alguns tipos de câncer. Nesse contexto, o café da manhã saudável deixa de ser apenas uma tendência e se consolida como um eixo estruturante de políticas públicas, estratégias comerciais e decisões de consumo — com impactos duradouros para os lácteos e para toda a cadeia alimentar.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de SuperVarejo






