O monopólio no comércio internacional de lácteos e carnes tornou-se o centro de uma nova disputa transatlântica, após autoridades dos Estados Unidos acusarem a União Europeia de buscar vantagem estrutural no mercado sul-americano por meio do acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul.
Representantes do governo norte-americano afirmaram que o pacto em fase de implementação favorece de forma desproporcional produtores europeus de carnes e queijos, ao conceder acesso preferencial a mercados estratégicos da América do Sul. O acordo envolve Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai e prevê a eliminação de quase todas as tarifas comerciais em um universo estimado de cerca de 700 milhões de consumidores, após mais de 25 anos de negociações.
Segundo autoridades comerciais dos EUA, as cláusulas do tratado, especialmente aquelas relacionadas a indicações geográficas protegidas, funcionam como barreiras indiretas para exportadores americanos de lácteos e carnes processadas. Produtos tradicionalmente associados à Europa, como determinados queijos e presuntos, teriam sua comercialização protegida, limitando a entrada de fornecedores de fora do bloco europeu.
Um funcionário dos Estados Unidos familiarizado com as negociações descreveu o acordo como uma tentativa deliberada de “restringir a concorrência e reduzir oportunidades de exportação para fornecedores não europeus”. A crítica incide diretamente sobre a arquitetura regulatória do pacto, mais do que sobre tarifas nominais, sinalizando uma disputa que ultrapassa preços e volumes e avança sobre regras de acesso e reconhecimento de produtos.
A reação americana se insere em um contexto mais amplo de tensões comerciais entre Washington e Bruxelas. Nos últimos anos, exportadores agrícolas dos EUA têm demonstrado frustração com a lentidão nas reduções tarifárias e com exigências regulatórias consideradas excessivas em mercados-chave. Essas fricções levaram o governo americano a lançar pacotes de apoio financeiro ao setor agrícola, incluindo um programa de aproximadamente US$ 12 bilhões para compensar produtores afetados por disputas comerciais internacionais.
Para a União Europeia, o acordo com o Mercosul é apresentado como uma estratégia de longo prazo para fortalecer laços comerciais, diversificar destinos de exportação e consolidar padrões regulatórios comuns. Defensores do pacto argumentam que a abertura gradual dos mercados cria previsibilidade e estabilidade para investimentos, além de ampliar o fluxo de bens industriais e agroalimentares.
No entanto, do ponto de vista dos Estados Unidos, a iniciativa europeia desloca fornecedores concorrentes e altera o equilíbrio competitivo em segmentos sensíveis, como lácteos, carnes bovinas e produtos de valor agregado. A crítica ao suposto monopólio europeu revela uma preocupação estratégica mais ampla: quem define as regras de acesso aos mercados emergentes e sob quais condições.
Embora o acordo UE–Mercosul ainda não tenha produzido todos os seus efeitos práticos, o debate expõe divisões profundas na governança do comércio agrícola global. Em um cenário de cadeias de suprimento reconfiguradas, tensões geopolíticas e maior uso de políticas comerciais como instrumentos estratégicos, decisões regulatórias passam a ter peso equivalente — ou superior — às tarifas tradicionais.
Para o setor internacional de lácteos, o episódio funciona como um sinal claro de alerta. A combinação entre acordos regionais, proteção de origem geográfica e preferências tarifárias tende a redefinir, de forma duradoura, quem compete, quem entra e quem fica de fora dos principais mercados consumidores.
Para produtores, exportadores e formuladores de políticas, a disputa entre Estados Unidos e União Europeia no Mercosul antecipa um ambiente de comércio mais fragmentado, regulado e estrategicamente disputado.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de EDairy News English






