Preço do leite em queda no Brasil tem colocado produtores sob forte pressão financeira, em um cenário marcado por custos elevados, margens comprimidas e pouca percepção de alívio para o consumidor final.
A combinação desses fatores tem levado parte dos produtores a operar no prejuízo — e, em casos mais extremos, a abandonar a atividade.
Atualmente, o valor pago ao produtor gira em torno de R$ 2,01 por litro em diversas regiões do país, patamar considerado insuficiente por grande parte do setor para cobrir os custos de produção. Ao mesmo tempo, os preços no varejo permanecem relativamente firmes, evidenciando uma desconexão entre os diferentes elos da cadeia.
Essa distorção tem alimentado uma pergunta recorrente entre agentes do setor: quem realmente define o preço do leite no Brasil?
Na prática, especialistas apontam que o produtor tende a ser o elo mais vulnerável. Por se tratar de um produto altamente perecível, o leite precisa ser coletado, processado e comercializado rapidamente, o que reduz o poder de negociação na fazenda.
Indústria e varejo, por outro lado, operam com maior capacidade de ajuste comercial. Quando o mercado encontra resistência para repassar aumentos ao consumidor, a correção frequentemente ocorre na origem — pressionando o valor pago ao produtor.
O resultado é um quadro recorrente:
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produtores vendem por menos;
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os custos permanecem elevados;
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consumidores continuam pagando caro.
Mesmo com o preço do leite em baixa, despesas essenciais seguem pesando na estrutura produtiva. Alimentação animal, milho, soja, fertilizantes, energia elétrica, combustível e manutenção estão entre os principais componentes que sustentam o custo operacional.
Produtores relatam estar “no meio do sanduíche”: compram insumos caros, vendem a preços menores e enfrentam dificuldades para repassar aumentos. O impacto é particularmente forte sobre produtores médios, que muitas vezes não possuem escala suficiente para diluir custos nem estrutura para verticalizar a produção.
Outro fator que amplia a pressão é a importação de leite e derivados, especialmente de países do Mercosul. Em momentos de risco inflacionário ou possível escassez, a entrada de produto estrangeiro tende a ser utilizada como mecanismo para conter preços internos.
Na prática, essa estratégia eleva a oferta doméstica e intensifica a competição, reduzindo ainda mais a remuneração do produtor nacional. Para parte do setor, o mercado reage rapidamente para evitar altas ao consumidor, mas com menor intensidade quando o objetivo é preservar a rentabilidade no campo — uma assimetria que pode influenciar decisões de investimento e permanência na atividade.
O debate também alcança as políticas públicas. Por ser um alimento básico, presente na maioria dos lares brasileiros, há interesse governamental em evitar aumentos expressivos ao consumidor. Ainda assim, produtores apontam ausência de políticas consistentes de proteção, mecanismos eficazes de preço mínimo e condições tributárias que favoreçam a agregação de valor.
Para pequenos produtores, reduzir a dependência dos laticínios por meio da fabricação de queijos, iogurtes ou outros derivados frequentemente esbarra em exigências sanitárias, fiscais e logísticas que elevam o custo de entrada.
Produtores que conseguem verticalizar — controlando da fazenda à venda final — tendem a atravessar melhor os ciclos de volatilidade, pois definem seus próprios preços e distribuem melhor os custos. Já pequenos e médios produtores familiares, dependentes da coleta industrial, costumam sentir primeiro os efeitos das oscilações.
Embora a crise pareça concentrada no campo, seus reflexos são amplos. Se produtores deixam a atividade, a oferta futura pode ser comprometida, enfraquecendo a cadeia e ampliando o risco de pressão inflacionária mais adiante.
A queda do preço do leite, portanto, expõe um desafio estrutural: quem assume maior risco nem sempre captura a maior parcela de valor. Sem maior equilíbrio entre os elos da cadeia e instrumentos capazes de sustentar a produção, o setor pode enfrentar uma transição marcada por menor número de produtores e maior concentração produtiva.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Click Petróleo e Gás






