Cereulida passou a ser o centro de uma nova recomendação de segurança alimentar na Europa.
A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) propôs doses de referência para a toxina, ocasionalmente encontrada em leite em pó e fórmulas infantis, após uma série de recalls que atingiram dezenas de países.
Segundo a agência, uma concentração superior a 0,054 microgramas de cereulida por litro em fórmulas infantis ou acima de 0,1 microgramas por litro em fórmulas de seguimento “pode levar à superação de níveis considerados seguros”. A EFSA também sugeriu uma dose aguda de referência (ARfD) de 0,014 microgramas por quilo de peso corporal para bebês, parâmetro voltado à avaliação de riscos imediatos à saúde.
Em comunicado, o órgão — com sede na Itália — afirmou que a orientação “tem como objetivo ajudar gestores de risco da União Europeia a determinar quando produtos devem ser retirados do mercado como medida preventiva de saúde pública”. Ainda não está claro se a recomendação resultará em novos recalls.
O movimento ocorre após fabricantes, incluindo Nestlé, Danone e Lactalis, anunciarem recolhimentos de fórmulas infantis em mais de 60 países, entre eles a França, desde dezembro. As ações foram motivadas pelo risco potencial de contaminação por cereulida, toxina produzida por determinadas bactérias.
De acordo com o Ministério da Saúde francês, a substância é “provavelmente capaz de causar principalmente problemas digestivos, como vômitos ou diarreia”. Embora geralmente associada a quadros gastrointestinais, a presença da toxina em produtos destinados a bebês eleva o nível de atenção das autoridades sanitárias.
A França abriu duas investigações criminais após a morte de dois bebês que consumiram fórmula infantil recolhida pela Nestlé devido à “possível contaminação” por uma substância bacteriana. O ministério destacou, porém, que nenhum vínculo causal foi estabelecido até o momento.
A Comissão Europeia havia solicitado à EFSA o estabelecimento de um padrão técnico para cereulida em alimentos destinados a crianças, sinalizando uma preocupação crescente com riscos microbiológicos em cadeias altamente sensíveis. A proposta de dose de referência representa um passo relevante na tentativa de harmonizar critérios de segurança e oferecer maior previsibilidade às decisões regulatórias.
Para a indústria de lácteos e nutrição infantil, a recomendação reforça a tendência de vigilância mais rigorosa sobre contaminantes emergentes. Mesmo sem determinar automaticamente retiradas adicionais, parâmetros quantitativos tendem a influenciar protocolos de controle de qualidade, rastreabilidade e resposta rápida — áreas cada vez mais críticas em mercados globalizados.
O episódio também evidencia como eventos sanitários podem repercutir simultaneamente em reputação de marca, gestão de risco e confiança do consumidor, especialmente em categorias de alto valor agregado e sensibilidade social. Nesse contexto, a clareza regulatória buscada pela EFSA pode funcionar como referência técnica para fabricantes e autoridades nacionais ao avaliar exposições potenciais.
Até agora, a agência não indicou prazos para a eventual adoção formal dos limites, mas sua recomendação já oferece um marco científico para futuras decisões sobre segurança alimentar na União Europeia.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Medical X Press






