A Nestlé entrou em uma fase de ajuste estrutural acelerado, combinando desinvestimentos, cortes de pessoal e simplificação do portfólio com um objetivo claro: liberar até 8 bilhões de euros em margem financeira para reativar o crescimento do grupo.
A estratégia marca uma inflexão relevante na condução do negócio. Após anos de expansão limitada, a companhia passa a priorizar eficiência operacional, foco em categorias-chave e redução da complexidade interna. O comando dessa nova etapa está nas mãos de Pablo Isla, presidente do grupo, e de Philipp Navratil, diretor executivo.
Um dos principais vetores financeiros da reestruturação é a possível venda do negócio de águas, que inclui marcas como Perrier e San Pellegrino. A divisão, colocada novamente no radar após um período de estagnação, está avaliada em cerca de 5 bilhões de euros. A operação, ainda em fase preliminar, envolve potenciais interessados do universo de private equity e representa uma alavanca relevante de geração de caixa.
Paralelamente, a Nestlé avançou em um dos movimentos mais sensíveis de sua história recente: o anúncio de 16 mil demissões globais, equivalentes a 5,8% da força de trabalho, atualmente estimada em 277 mil funcionários. O plano prevê implementação ao longo de dois anos e busca reduzir custos estruturais em 3,27 bilhões de euros no período.
A combinação entre venda de ativos e redução de pessoal forma a base financeira da nova estratégia. Segundo estimativas internas, os recursos liberados serão direcionados a reinversões estratégicas, embora a empresa evite detalhar prazos ou destinos específicos. Para os trabalhadores, no entanto, o processo tem gerado incerteza: meses após o anúncio, sindicatos europeus relatam falta de informações sobre cronograma e critérios de aplicação dos cortes.
Além do impacto financeiro, a reestruturação atinge o modelo de negócios. A Nestlé pretende reduzir drasticamente a dispersão do portfólio e concentrar suas operações em quatro grandes categorias: café, cuidado de animais de estimação, nutrição e saúde, e alimentos e snacks. A leitura interna é que menos marcas, porém mais fortes, permitirão maior agilidade estratégica e melhor resposta às mudanças no comportamento do consumidor.
Essa simplificação também busca resolver um desafio histórico do grupo: a complexidade organizacional. Com presença global e dezenas de marcas locais, a Nestlé vinha enfrentando dificuldades para coordenar decisões e acelerar adaptações. A nova abordagem aposta em maior cooperação entre equipes e estruturas mais enxutas.
Para executivos e tomadores de decisão do setor de alimentos e bebidas, o movimento da Nestlé funciona como sinal claro. Em um ambiente de crescimento pressionado e custos elevados, escala por si só deixa de ser vantagem. Foco, disciplina financeira e clareza estratégica passam a ocupar o centro da agenda.
A mensagem é direta: a Nestlé não está apenas cortando custos, mas redesenhando prioridades para sustentar competitividade no médio prazo.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Vozpópuli






