Setor lácteo global vive uma fase de inflexão estrutural, e o diagnóstico ganha peso quando parte de quem ocupa o principal cargo de articulação científica e institucional do leite no mundo.
Para Gilles Froment, presidente da Federação Internacional de Lácteos (IDF), o setor entrou em um ciclo de decisões críticas, com impactos diretos sobre produção, comércio e segurança alimentar.
A partir de uma visão global, Froment identifica três frentes que exigem resposta imediata. A primeira é a resiliência econômica. Inflação persistente, volatilidade de mercado e tensões geopolíticas estão comprimindo margens e aumentando riscos operacionais. Segundo ele, o setor está sendo pressionado a produzir mais com menos, o que torna os marcos regulatórios e as políticas públicas parte central da equação competitiva.
O segundo eixo é a ação climática. Para o presidente da IDF, o debate deixou o campo das intenções. Produtores e cadeias lácteas já aplicam soluções para reduzir emissões e melhorar eficiência no uso de recursos, mas o desafio agora é escala. Tecnologias como inovação em alimentação animal, manejo de dejetos, melhoramento genético e monitoramento digital precisam chegar a propriedades de todos os tamanhos e regiões para gerar impacto real.
O terceiro ponto é menos técnico, mas igualmente estratégico: a polarização do debate sobre sistemas alimentares. Froment alerta que decisões guiadas por ideologia, e não por evidências, criam distorções regulatórias e ruído público. Para ele, recolocar a ciência no centro — seja em nutrição, meio ambiente ou contribuição socioeconômica — é condição para decisões equilibradas e previsíveis.
Olhando para os próximos 10 a 15 anos, Froment projeta um setor lácteo cada vez mais orientado por dados. A digitalização deve permitir sistemas produtivos mais precisos, eficientes e resilientes. Paralelamente, a transparência deixa de ser diferencial e passa a ser exigência. Indicadores verificados de bem-estar animal e impacto ambiental tendem a substituir declarações genéricas como base de confiança.
No campo nutricional, o presidente da IDF reforça uma posição clara: apesar da evolução contínua da ciência, os lácteos seguem como elemento central de dietas saudáveis em todas as regiões. À medida que avança o entendimento sobre biodisponibilidade, o papel do leite na nutrição sustentável tende a se consolidar.
A sustentabilidade, segundo Froment, se constrói por melhoria contínua. Ele aponta ações práticas já disponíveis: otimização da eficiência alimentar para reduzir a intensidade de metano, aprimoramento do manejo de dejetos, fortalecimento da saúde do solo, uso mais eficiente da água, adoção de boas práticas de bem-estar e uso de ferramentas digitais para monitorar desempenho. A combinação dessas medidas gera ganhos ambientais e econômicos simultaneamente.
No comércio internacional, Froment observa um setor mais conectado, porém mais exposto. Barreiras comerciais, conflitos e falhas logísticas levam países e empresas a diversificar rotas, investir em processamento regional e priorizar segurança alimentar. Ainda assim, ele defende regras previsíveis, harmonizadas e baseadas em ciência como condição para equilibrar interesses globais.
Nesse contexto, a região do Oriente Médio e Norte da África (MENA) surge como estratégica. Crescimento populacional, afinidade cultural com lácteos e investimentos em segurança alimentar impulsionam oportunidades, apesar de riscos como escassez hídrica e vulnerabilidade climática.
Para Froment, fóruns internacionais ganham relevância justamente por conectar ciência, prática e política. Em um setor globalizado, decisões isoladas tendem a perder eficácia — e o futuro do leite passa, inevitavelmente, pela coordenação.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de DairyNews Today






