A produtividade leiteira evidencia uma diferença estrutural entre os sistemas de produção do Brasil e de Israel.
Enquanto o Brasil registra média de aproximadamente 2.632 litros por vaca ao ano, Israel supera 12 mil litros por animal, segundo dados oficiais. O contraste não está apenas no volume, mas na consistência dos resultados produtivos.
O Brasil alcançou 35,7 bilhões de litros de leite em 2024, consolidando a relevância econômica da cadeia. No entanto, a eficiência individual permanece diluída pela heterogeneidade dos sistemas. A produção nacional reúne desde propriedades altamente tecnificadas até sistemas a pasto com diferentes níveis de manejo, incluindo pequenos produtores e grandes operações. Essa diversidade amplia a dispersão dos indicadores médios.
Em Israel, o modelo produtivo apresenta maior padronização. A menor variabilidade operacional contribui para estabilidade nos resultados, o que sustenta níveis elevados de produtividade. A diferença, portanto, não é marginal. É estrutural e está ligada à forma como os sistemas são organizados e geridos.
O estresse térmico é um dos fatores centrais nessa equação. Altas temperaturas afetam consumo de matéria seca, eficiência alimentar, fertilidade, saúde metabólica e persistência de lactação. Israel enfrenta calor intenso, mas investe de forma sistemática em ventilação e aspersão para mitigar os efeitos fisiológicos sobre os animais. O objetivo é preservar o desempenho produtivo mesmo em condições adversas.
No Brasil, o estresse térmico também é recorrente, especialmente em regiões produtoras. No entanto, a adoção ampla de sistemas de climatização encontra limitações relacionadas a custo energético, infraestrutura e viabilidade econômica, sobretudo em sistemas a pasto. Isso amplia a variabilidade dos resultados produtivos.
A eficiência reprodutiva é outro ponto crítico. Indicadores como taxa de prenhez, dias em aberto e intervalo entre partos impactam diretamente a produção ao longo da lactação. Em Israel, esses parâmetros são monitorados continuamente, com decisões baseadas em dados individuais dos animais. Esse controle reduz perdas e aumenta a previsibilidade produtiva.
No Brasil, a variabilidade ambiental, nutricional e estrutural entre propriedades dificulta a uniformidade desses indicadores. Como resultado, há maior dispersão na eficiência reprodutiva e, consequentemente, na produtividade média.
A eficiência alimentar reforça esse padrão. Sistemas mais controlados apresentam maior previsibilidade na conversão entre matéria seca ingerida e leite produzido. Israel opera com ajustes frequentes e monitoramento rigoroso da dieta. Já no Brasil, oscilações de clima, manejo e qualidade nutricional contribuem para variações na conversão produtiva.
O ambiente econômico também influencia. A volatilidade de preços ao produtor no Brasil, com queda em termos reais em 2025, pressiona margens e limita investimentos em intensificação. Esse cenário restringe a adoção de tecnologias que exigem maior capital e custo operacional. Israel, por sua vez, opera com maior previsibilidade estrutural e uma cadeia mais organizada, além de um rebanho menor.
A comparação técnica indica que o Brasil possui capacidade para atingir padrões elevados de produtividade, já observados em propriedades de alto desempenho. O desafio central está na redução da variabilidade entre sistemas. Práticas como uso sistemático de indicadores zootécnicos, gestão reprodutiva disciplinada, nutrição de precisão e estratégias de conforto térmico já demonstram aplicabilidade no contexto brasileiro.
A produtividade elevada, nesse cenário, não depende apenas de tecnologia, mas da consistência na gestão das variáveis que determinam o desempenho produtivo.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de O Presente Rural






