Bebida com soro de leite pode parecer improvável — até o primeiro gole. Refrescante, levemente ácida e com aroma de caju, a novidade desenvolvida na Universidade Federal da Paraíba transforma um resíduo da indústria láctea em uma proposta que combina sabor, nutrição e sustentabilidade.
A bebida com soro de leite foi criada no Departamento de Engenharia de Alimentos da UFPB como parte de um Trabalho de Conclusão de Curso. O projeto envolveu a estudante Annie Raposo, com orientação do professor Marcelo Muniz e coorientação de Kristerson Freire, além da colaboração do biotecnólogo Ícaro de Oliveira. O resultado foi um pedido de patente junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), via Agência UFPB de Inovação Tecnológica.
A ideia surgiu a partir de um desafio conhecido do setor: o destino do soro de leite. Subproduto da fabricação de queijos e iogurtes, ele possui alta carga orgânica e pode gerar impacto ambiental significativo quando descartado sem tratamento. Ao mesmo tempo, carrega valor nutricional relevante, com proteínas de alto valor biológico, lactose e minerais.
A solução foi reimaginar esse insumo como base para uma bebida fermentada alcoólica. Para isso, os pesquisadores buscaram um ingrediente complementar que agregasse sabor e valor nutricional — e encontraram no caju uma combinação estratégica. Rico em vitamina C, minerais, fibras e compostos antioxidantes, o fruto contribui tanto para o perfil sensorial quanto funcional do produto.
O resultado é uma bebida gaseificada, de baixo teor alcoólico, que remete a um frisante. Leve e aromática, apresenta notas marcantes de caju e uma acidez equilibrada, pensada para ampliar a aceitação do consumidor.
Mas chegar a esse perfil não foi simples. Um dos principais desafios técnicos foi eliminar o sabor residual característico do soro de leite, frequentemente associado a queijo. Para isso, a equipe realizou uma série de testes envolvendo diferentes tipos de soro, seleção de microrganismos fermentativos, métodos de fermentação e combinações de matérias-primas.
Outro ponto crítico foi o estudo da cocultura microbiana, buscando equilíbrio entre desempenho fermentativo e resultado sensorial. A construção dessa base técnica foi essencial para transformar um subproduto complexo em uma bebida agradável e comercialmente viável.
Com o pedido de patente já realizado, a expectativa agora é avançar na possível inserção no mercado. A proposta reúne atributos que dialogam com tendências claras: aproveitamento de resíduos, inovação em bebidas e busca por produtos diferenciados.
Para a indústria, o desenvolvimento aponta um caminho interessante. Mais do que reduzir passivos ambientais, abre-se a possibilidade de criar novas categorias de produtos com valor agregado, aproveitando fluxos já existentes na cadeia produtiva.
Ainda em estágio inicial, a bebida representa um exemplo concreto de como ciência aplicada pode gerar soluções com impacto econômico e ambiental — e, potencialmente, conquistar espaço também no paladar do consumidor.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de eCycle






