A proposta de redução da jornada de trabalho no Brasil coloca a cadeia do leite em estado de atenção.
O tema, levado ao Ministério da Agricultura e Pecuária por representantes do setor, acende um sinal claro para o empresário: a mudança pode alterar de forma relevante a estrutura de custos e a dinâmica operacional da atividade.
O ponto central está no impacto direto sobre a mão de obra. A redução da carga semanal de 44 para 36 horas implica uma perda significativa de horas trabalhadas no país. Para compensar esse volume, seria necessária a contratação de milhões de trabalhadores adicionais, com um custo anual elevado em salários e encargos. Para a cadeia do leite, intensiva em trabalho contínuo, esse ajuste não é marginal. Ele redefine o custo base da produção.
A pecuária leiteira reúne características que amplificam esse efeito. Presente em mais de um milhão de propriedades, a atividade exige operação ininterrupta, com ordenhas diárias que podem ocorrer em múltiplos turnos ao longo de todos os dias do ano. A natureza perecível do leite elimina a possibilidade de pausas ou readequações simples de escala. Na prática, qualquer redução de jornada precisa ser compensada com mais pessoas ou maior custo por hora trabalhada.
Esse mecanismo se soma a desafios já existentes. A cadeia enfrenta escassez de mão de obra qualificada, carga tributária elevada e concorrência com produtos importados. Nesse contexto, o aumento de custos tende a se propagar ao longo da cadeia, pressionando margens, preços e decisões de investimento.
O risco operacional também entra no radar. Representantes do setor apontam que a combinação de maior custo e dificuldade de reposição de mão de obra pode resultar em desabastecimento e aumento de preços. Há ainda a possibilidade de intensificação da informalidade e precarização das relações de trabalho, caso os agentes busquem alternativas para mitigar o impacto financeiro.
Em nível regional, estudos já dimensionam o efeito econômico. Apenas na agropecuária de um estado relevante, a mudança pode gerar impacto bilionário anual, considerando o volume de empregos e a massa salarial envolvida. Esse dado reforça que o tema não se limita a ajuste trabalhista. Ele tem implicações diretas sobre competitividade, estrutura produtiva e capacidade de investimento.
Diante desse cenário, a cadeia do leite converge para uma mesma posição: a necessidade de um debate técnico e aprofundado antes de qualquer implementação. A defesa é que a discussão ocorra em momento adequado, com participação ativa do setor produtivo, para evitar decisões desconectadas das especificidades da atividade.
Para o empresário, o recado é objetivo. A eventual redução da jornada não é apenas uma mudança regulatória. Trata-se de um vetor de custo com potencial de alterar a equação econômica da produção leiteira, exigindo revisão de estratégias operacionais, de gestão de pessoas e de alocação de capital.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Minuto MT






