A pegada hídrica passou a ocupar o centro das decisões na produção de leite, ao evidenciar que o consumo de água por unidade produzida depende menos do sistema adotado e mais da forma como ele é conduzido.
Levantamento com 67 propriedades no Rio Grande do Sul mostra que há ampla variação entre resultados e, sobretudo, espaço concreto para ganho de eficiência dentro das fazendas.
O dado mais direto para a tomada de decisão é a amplitude observada: a média foi de 704 litros de água por quilo de leite corrigido, com casos abaixo de 300 litros e outros acima de mil. Essa dispersão indica que o desempenho não está travado por modelo produtivo, mas pela execução. Sistemas a pasto, semi-intensivos e intensivos apresentaram resultados distintos, reforçando que a gestão define o resultado final.
O mecanismo por trás desse comportamento é claro. A maior parte do consumo hídrico está concentrada na alimentação do rebanho, chegando a representar mais de 98% do total em alguns sistemas. Isso desloca o foco da eficiência para a produção agrícola e para a conversão alimentar. Quanto maior o rendimento das lavouras e melhor o aproveitamento da dieta, menor o volume de água necessário por litro de leite.
A produtividade animal atua como multiplicador desse efeito. Fazendas com maior produção por vaca e melhor eficiência alimentar diluem o consumo hídrico por unidade produzida. Na prática, produzir mais com os mesmos recursos reduz o impacto relativo da água, transformando desempenho zootécnico em indicador ambiental.
No plano operacional, há ganhos acessíveis e de rápida implementação. Ajustes em rotinas de higienização, por exemplo, reduzem desperdícios sem afetar a qualidade do processo. O uso adequado de equipamentos e o manejo mais preciso da água nas tarefas diárias aparecem como alavancas diretas de eficiência. O tratamento de resíduos também entra nessa equação, ao reduzir a carga de poluentes e melhorar os indicadores associados à água cinza.
O contexto climático adiciona pressão ao sistema. Cenários com elevação de temperatura entre 1,5 °C e 2,5 °C já indicam aumento na demanda hídrica. O efeito é duplo: maior consumo pelos animais e queda no rendimento das culturas, especialmente o milho. Com menor produtividade agrícola, mais recursos são necessários para sustentar o mesmo nível de produção, ampliando a pegada hídrica.
Ainda assim, o estudo aponta que o impacto do clima não é determinístico. Práticas bem conduzidas conseguem mitigar parte desse aumento, mantendo a eficiência mesmo em condições mais adversas. Isso reforça que a resposta está mais na gestão do que na mudança estrutural do sistema.
Para a cadeia láctea, a implicação é direta. A competitividade tende a se concentrar em operações que consigam integrar produtividade agrícola, eficiência animal e controle operacional do uso de água. A escolha de genética mais eficiente, o ajuste fino da dieta e o controle dos processos internos deixam de ser apenas decisões técnicas e passam a influenciar o desempenho ambiental e econômico.
A leitura que emerge é objetiva: a pegada hídrica não é apenas um indicador, mas um critério de gestão. Em um cenário de maior pressão climática, a eficiência produtiva se consolida como o principal caminho para sustentar a atividade.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Notícias Agrícolas






