A crise no Oriente Médio já se traduz em custos mais altos e maior volatilidade para a cadeia do leite.
A disrupção no Estreito de Hormuz, rota estratégica do comércio global de energia, desencadeou um choque simultâneo em energia, logística e insumos agrícolas, alterando o equilíbrio econômico da produção láctea.
O primeiro impacto é direto: energia mais cara. O petróleo subiu para a faixa de US$100-110 por barril, enquanto o gás natural avançou 35%. Esse movimento pressiona toda a cadeia agroalimentar, onde combustível e eletricidade são insumos transversais, do campo à indústria. No leite, isso se traduz em aumento no custo operacional das fazendas, no processamento e na logística refrigerada.
O segundo vetor é logístico. A redução de 70% no fluxo de transporte marítimo, combinada com navios parados e seguros mais caros, elevou o custo do frete e atrasou o fornecimento de insumos. Cerca de 4-5% do comércio global de grãos passa pela região, o que adiciona pressão sobre a disponibilidade e o custo de matérias-primas para ração.
O mecanismo de transmissão para a produção é claro: insumos mais caros elevam o custo da ração e reduzem a previsibilidade do abastecimento. Produzir 1 kg de ração exige entre 3 e 10 MJ de energia, equivalente a aproximadamente 70 a 230 ml de óleo. Como a alimentação representa entre 60% e 70% do custo total da produção animal, qualquer variação energética se amplifica rapidamente dentro da fazenda.
A pressão também vem dos fertilizantes. Entre 20% e 50% dos embarques globais foram afetados, enquanto os preços da ureia subiram de forma significativa em poucas semanas. Como fertilizantes respondem por cerca de 40% a 50% do consumo energético na produção de milho e soja, o encarecimento reduz a aplicação no campo. A consequência direta é o risco de queda de produtividade, que pode chegar a até 50% em regiões mais dependentes desses insumos.
Esse conjunto de fatores converge para um mesmo resultado: custo de produção do leite em alta e margens comprimidas. A indústria láctea, altamente dependente de ração e energia, é particularmente sensível a esse cenário. Historicamente, choques energéticos se traduzem rapidamente em aumento no custo da alimentação e, em seguida, no custo do leite.
No mercado, o efeito tende a ser repassado. O aumento dos custos ao longo da cadeia pressiona os preços finais de leite e derivados, ao mesmo tempo em que eleva a volatilidade. Para produtores e indústrias, o ambiente passa a exigir maior atenção à gestão de custos e à previsibilidade de insumos.
A resposta já começa a surgir na forma de busca por alternativas de fornecimento e diversificação logística. Ainda assim, enquanto persistirem as disrupções no Estreito de Hormuz, o sistema agroalimentar global seguirá exposto a riscos elevados, com impacto direto na dinâmica de custos e na estabilidade do mercado lácteo.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Dairy Global






