A competitividade passou a ocupar o centro da discussão sobre o futuro da cadeia do leite no Brasil.
Mesmo com crescimento consistente da produção nos últimos anos, representantes da indústria avaliam que ampliar volume já não é suficiente para sustentar espaço no mercado interno e avançar nas exportações.
O debate ganhou força durante o Seminário de Sanidade em Pecuária Leiteira – Caminhos para a Exportação, realizado na Fenasul Expoleite 2026, em Esteio.
No encontro, o presidente do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do Rio Grande do Sul (Sindilat/RS), Guilherme Portella, afirmou que o país reúne condições produtivas para disputar espaço entre os principais exportadores globais de lácteos, mas ainda enfrenta limitações estruturais que reduzem sua competitividade.
A avaliação apresentada pelo dirigente desloca o foco da discussão apenas sobre produção. Segundo Portella, a sanidade animal é condição necessária para acessar mercados, mas a permanência depende da capacidade competitiva da cadeia como um todo.
Nesse contexto, fatores como logística, tributação, escala industrial, tecnologia e assistência técnica aparecem como elementos decisivos para a evolução do setor. A leitura defendida pela indústria é de que a eficiência sistêmica passa a ser tão importante quanto o crescimento da oferta de leite.
Os números do Rio Grande do Sul ajudam a explicar esse movimento. O estado ocupa atualmente a posição de terceira maior bacia leiteira do Brasil e ampliou sua produção de 2,36 bilhões para 4,03 bilhões de litros anuais entre 2004 e 2024. O volume corresponde a 11,28% da produção brasileira e representa 2,81% do Produto Interno Bruto gaúcho, movimentando aproximadamente R$ 19,86 bilhões.
Mesmo com esse avanço, a cadeia ainda convive com pressões internas e externas. Entre janeiro e abril de 2026, ingressaram no Brasil cerca de 65 mil toneladas de leite em pó e 18,2 mil toneladas de queijo provenientes do Mercosul, especialmente de Argentina e Uruguai. Segundo os dados apresentados no seminário, o volume equivale a aproximadamente 709 milhões de litros de leite, quantidade correspondente a cerca de 60 dias da produção gaúcha.
O dado foi utilizado pela indústria para reforçar a necessidade de medidas voltadas ao fortalecimento da competitividade doméstica. A preocupação do setor não se limita ao aumento das importações, mas ao impacto que diferenças estruturais de custo e eficiência podem gerar sobre a capacidade de reação da cadeia brasileira.
Nesse cenário, Portella também defendeu a continuidade do Programa Mais Leite Saudável, apontado como instrumento importante para estimular investimentos e modernização da atividade. A avaliação apresentada no encontro é de que políticas públicas voltadas à eficiência produtiva e industrial devem ser tratadas como parte da estratégia competitiva do setor.
Ao longo do seminário, representantes da indústria, produtores, entidades e governo reforçaram a necessidade de maior integração entre os diferentes elos da cadeia. A leitura predominante foi de que o avanço das exportações brasileiras dependerá menos do potencial produtivo isolado e mais da capacidade de coordenação e eficiência do sistema como um todo.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de O Presente Rural






