O preço do leite ao produtor continua em níveis significativamente superiores aos registrados no início de 2026, mas os sinais emitidos pela indústria indicam que o ciclo de valorização pode estar chegando ao limite.
Depois de quatro meses consecutivos de alta, o mercado começa a migrar de um cenário de recuperação para outro de estabilidade, alterando as perspectivas para produtores e laticínios no segundo semestre.
Entre janeiro e abril, o preço médio nacional pago ao produtor avançou 31%, passando de R$ 2,02 para R$ 2,65 por litro, segundo dados do Cepea/Esalq/USP. O movimento também foi percebido pelo consumidor. No acumulado do ano, leite e derivados registraram alta de 9,83% no IPCA, enquanto o leite longa vida acumulou aumento de 22,32%.
Os números mais recentes da Scot Consultoria mostram que o pagamento realizado em maio, referente ao leite entregue em abril, subiu 6,5% em relação ao mês anterior. Com isso, a cotação média ponderada alcançou R$ 2,452 por litro nos dezoito estados monitorados pela consultoria.
Apesar do avanço, a percepção predominante no setor é de desaceleração. Levantamento da Scot revela que 49% dos laticínios esperam estabilidade nos pagamentos de junho, enquanto 41% projetam queda e apenas 10% acreditam em novos aumentos.
Parte dessa expectativa está associada à perspectiva de uma boa segunda safra de milho e ao aumento do esmagamento de soja no país. A disponibilidade de alimentos concentrados pode favorecer ganhos de produtividade em sistemas mais intensivos, contribuindo para ampliar a oferta e reduzir a pressão sobre os preços.
O comportamento da demanda também ajuda a explicar o cenário atual. Segundo análises do setor, o mercado iniciou o ano com preços até 20% inferiores aos registrados um ano antes, o que estimulou o consumo. Ao mesmo tempo, a produção desacelerou após um período de forte perda de rentabilidade para os produtores.
Essa combinação entre oferta menos dinâmica e demanda em recuperação contribuiu para a valorização observada nos primeiros meses do ano. Para o segundo semestre, a expectativa é que essa mesma relação impeça movimentos bruscos de queda, mesmo que os preços deixem de subir.
A preocupação dos produtores, entretanto, vai além das cotações do leite. O aumento dos custos de produção continua limitando a recuperação das margens. Fertilizantes, combustíveis e outros insumos voltaram a pressionar os sistemas produtivos, enquanto as importações de queijo e leite em pó permanecem no radar das entidades do setor.
Nesse contexto, especialistas defendem uma postura mais conservadora para 2026, com foco em controle de despesas, descarte de animais menos produtivos e cautela na realização de grandes investimentos.
Enquanto o mercado do leite fluido dá sinais de estabilização, um segmento específico da cadeia segue apresentando dinâmica diferente. A demanda por proteína de soro de leite, o whey protein, continua crescendo e despertando o interesse da indústria. O avanço do consumo de produtos associados à nutrição e à alimentação saudável elevou os preços do soro em pó no mercado nacional, especialmente nas regiões com maior capacidade de processamento.
O movimento reforça que, em um cenário de menor valorização da matéria-prima, a captura de valor tende a depender cada vez mais da eficiência produtiva e da capacidade da indústria de direcionar volumes para segmentos de maior remuneração.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Globo Rural






