A exportação de lácteos voltou ao centro do debate brasileiro após 335 empresas e entidades se manifestarem sobre a proposta dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.
A movimentação internacional reforça uma discussão estratégica para o setor leiteiro: ampliar mercados externos e reduzir a dependência do consumo interno.
O posicionamento enviado ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) reuniu empresas brasileiras e americanas de diferentes segmentos, que apontaram possíveis impactos da medida sobre suas atividades e cadeias produtivas.
Entre os nomes que registraram manifestação estão empresas ligadas ao setor de alimentos e agronegócio, como Nestlé, JBS S.A., Bauducco Foods Inc., Archer Daniels Midland (ADM) e Louis Dreyfus Company. Também aparecem na lista companhias como Coca-Cola Company, além de empresas de outros setores afetados pela medida.
No campo institucional, participaram organizações como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA).
As manifestações ocorreram após o governo dos Estados Unidos anunciar uma proposta de tarifa de 25% sobre produtos brasileiros com base na Seção 301, mecanismo utilizado pelo país para impor tarifas consideradas coercitivas em determinadas disputas comerciais.
Para a cadeia leiteira, o movimento internacional reforça uma necessidade já discutida internamente: criar alternativas comerciais para uma atividade que enfrenta ciclos de instabilidade e forte concorrência.
O leite brasileiro busca uma rota internacional
Enquanto grandes empresas e entidades reagiam ao novo cenário comercial, a Aliança Láctea Sul Brasileira (ALSB) avançava em uma agenda voltada justamente para ampliar a presença dos lácteos brasileiros no exterior.
Em reunião realizada em Florianópolis, lideranças dos três Estados do Sul e representantes do Mato Grosso do Sul discutiram competitividade, abertura de mercados, sanidade e estratégias para fortalecer a cadeia produtiva.
Segundo o coordenador geral da Aliança Láctea, Ronei Volpi, dois pontos são considerados estratégicos: conquistar novos mercados para os produtos lácteos da Região Sul e avançar no controle sanitário do rebanho, especialmente em relação à brucelose e tuberculose.
“A atividade passa recorrentemente por crises, principalmente de preços, e, com essas ações, pretendemos reduzir a dependência de um mercado bastante incerto”, afirmou.
Sul aposta na exportação como estratégia
O consultor da ALSB, Airton Spies, apresentou atualizações sobre o Programa de Incentivo à Exportação de Leite pelo BRDE, estruturado para os três Estados da Região Sul.
Segundo os dados apresentados durante o encontro, a região responde por 41,1% do leite industrializado do país e possui produção superior ao consumo regional, cenário que aumenta a necessidade de buscar novos compradores.
A proposta prevê incentivos para projetos de laticínios interessados em exportar, com foco em produtos como leite em pó, queijos, manteiga e gordura anidra.
A expectativa é que maior competitividade permita ao setor enfrentar melhor a concorrência internacional, reduzir oscilações de preços aos produtores e fortalecer a cadeia.
Proteção interna e agregação de valor entram no debate
Além da abertura de mercados, a Aliança Láctea também discutiu medidas de proteção e novas oportunidades de negócio.
A secretária de Estado de Articulação Nacional de Santa Catarina e secretária do Codesul-SC, Vânia Oliveira Franco, destacou iniciativas como o Programa Leite Bom SC e o decreto do governador Jorginho Mello que suspende incentivos fiscais para importação de leite e derivados em Santa Catarina.
Outro ponto apresentado foi a possibilidade de desenvolver uma estratégia para o aproveitamento econômico do soro de leite e a produção de proteínas lácteas de alto valor agregado, especialmente o whey protein.
A reunião também abordou o processo antidumping relacionado ao leite em pó importado e ferramentas de gestão de risco para o mercado.
Com a pressão comercial dos Estados Unidos colocando exportações novamente no centro da agenda, o setor leiteiro brasileiro busca transformar um cenário de incerteza em uma oportunidade para ampliar sua presença no mercado internacional.






