A produção de leite no Rio Grande do Sul enfrenta um desafio que vai além da recuperação dos prejuízos provocados pelos eventos climáticos extremos.
Dois temporais registrados em um intervalo de apenas duas semanas deixaram animais mortos, galpões destruídos e propriedades com a capacidade produtiva comprometida, levantando uma preocupação crescente sobre a permanência de famílias na atividade.
Segundo a Associação dos Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando), os temporais atingiram produtores das regiões Celeiro e Missões, além de Selbach, Cruz Alta e municípios próximos. Em comum, as propriedades registraram perdas de estruturas essenciais para a rotina da produção leiteira, como galpões e outras instalações, além de mortes de animais.
Embora cada propriedade tenha enfrentado uma realidade diferente, o impacto converge para um mesmo ponto: quando a estrutura desaparece, a produção também fica comprometida. Em muitos casos, a renda da família é interrompida imediatamente, enquanto permanecem os financiamentos, os custeios e demais compromissos assumidos antes dos temporais.
Para o vice-presidente administrativo da Gadolando, Nacir Penz, a sucessão dos dois eventos climáticos agravou ainda mais a situação enfrentada pelos produtores. Segundo ele, as perdas envolveram tanto animais quanto estruturas indispensáveis para manter a atividade funcionando.
Foi nesse contexto que surgiu um dos casos mais emblemáticos acompanhados pela entidade. Após mais de 40 anos na atividade e com um rebanho de mais de 40 animais em lactação, um produtor decidiu encerrar a produção de leite por considerar inviável reconstruir toda a estrutura destruída pelos temporais.
O episódio, no entanto, é apresentado pela entidade como parte de um cenário mais amplo. O problema não se limita aos danos físicos causados pelos eventos climáticos, mas também à dificuldade financeira de reconstruir propriedades enquanto continuam existindo parcelas de financiamentos, obrigações bancárias e demais despesas da atividade.
Diante dessa realidade, a Gadolando defende que produtores atingidos por eventos climáticos sejam incluídos nas renegociações de financiamentos e obrigações bancárias já aprovadas para vítimas dessas ocorrências. A avaliação é de que muitas famílias perderam justamente os ativos responsáveis por gerar renda, mas seguem comprometidas com pagamentos assumidos anteriormente.
Além da renegociação das dívidas, a entidade propõe a criação, em âmbito federal, de um fundo permanente voltado ao atendimento de propriedades rurais atingidas por eventos climáticos. A ideia é oferecer suporte para situações que envolvam perdas de animais, instalações e capacidade produtiva, permitindo que as famílias tenham condições de reconstruir suas propriedades.
Na avaliação da associação, esse tipo de mecanismo pode representar uma alternativa para reduzir o impacto econômico dos desastres sobre a atividade leiteira e evitar que mais produtores deixem o setor diante da impossibilidade de recomeçar.
Os dois temporais registrados em poucas semanas reforçam, segundo a Gadolando, que o desafio para a produção de leite gaúcha já não está apenas em enfrentar os eventos climáticos. A continuidade da atividade passa, cada vez mais, pela capacidade de reconstrução das propriedades e pela existência de instrumentos que permitam às famílias permanecer no campo mesmo depois de perder animais, instalações e parte de sua capacidade de produzir.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Globo Rural e Feed & Food






