ESPMEXENGBRAIND
6 ago 2026
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🥗 Enquanto a ciência avança, a confiança do consumidor não acompanha o ritmo. Especialistas debateram o motivo por trás disso.
🔬 Regulação, ciência e desinformação dividiram o palco em um debate que expõe os bastidores de quem decide o que comemos.
🔬 Regulação, ciência e desinformação dividiram o palco em um debate que expõe os bastidores de quem decide o que comemos.

A segurança alimentar global segue distante de ser resolvida, mesmo com três anos consecutivos de queda na fome mundial.

É o que revelou um painel internacional realizado durante a Fi South America, no Summit Future of Nutrition, que reuniu representantes de agências da ONU, da indústria, da academia e do órgão regulador brasileiro para discutir os desafios que cercam ciência, alimentação e confiança pública.

Os números apresentados por Igor Carneiro, Head of Partnership and Business Development do World Food Programme (WFP/ONU), dão a dimensão do problema: 645 milhões de pessoas ainda passam fome no mundo, e mais de 2 bilhões vivem em situação de insegurança alimentar moderada a grave.

O WFP, maior agência humanitária do planeta, atua em mais de 123 países e atende 150 milhões de pessoas por ano, além de ser, segundo Carneiro, o maior comprador de alimentos do mundo — só no ano passado, a organização movimentou quase 200 milhões de toneladas.

Um dado chamou especial atenção: de acordo com o relatório de Segurança Alimentar e Nutricional das Nações Unidas, divulgado em julho, uma em cada três pessoas no mundo não tem condições financeiras de acessar uma dieta saudável.

E é justamente a América Latina que concentra o custo mais alto do planeta para se alimentar bem — US$ 4,91 por dia, acima da média mundial de US$ 4,28. Para Carneiro, o caminho passa necessariamente pela cooperação: “só vamos reduzir a fome no mundo se trabalharmos juntos”.

Enquanto os números globais preocupam, o debate também colocou luz sobre um problema mais silencioso: a distância crescente entre o conhecimento científico produzido sobre alimentos e a confiança da sociedade nesse conhecimento.

A moderadora do painel, Tamara Lazarini, presidente da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN), resumiu o paradoxo: nunca se produziu tanta ciência sobre nutrição e saúde, mas também nunca os consumidores estiveram tão expostos a informações contraditórias sobre o que comer. Para ela, a pergunta central do momento não é mais produzir mais ciência, mas fazer a sociedade confiar na que já existe.

Fátima D’Elia, Assessora Técnica da ABIAM, foi direta ao apontar o principal obstáculo hoje enfrentado pelo setor: desmistificar a desinformação em torno da alimentação e da nutrição, incluindo o avanço de influenciadores digitais sem respaldo científico.

Já Alexandre Novachi, diretor de Assuntos Regulatórios e Científicos da ABIA, defendeu que transformar ciência em regulação não é suficiente — é preciso transformar ciência em informação acessível. “O consumidor educado é um consumidor que vai confiar, que vai ter senso crítico”, afirmou, ao mesmo tempo em que cobrou mais geração de dados nacionais de consumo por parte da academia brasileira.

Nesse cenário, o papel do órgão regulador ganhou destaque. Patrícia Amaral, gerente geral de Alimentos da Anvisa, explicou que as decisões da agência são construídas com base no conjunto de evidências científicas disponíveis em cada momento — e que, como a ciência é dinâmica, essas decisões podem ser revistas ao longo do tempo.

Amaral também reconheceu limitações estruturais da própria Anvisa, admitindo que a agência ainda não tem uma estrutura robusta o suficiente para discutir inovações desde suas etapas iniciais, participando geralmente apenas quando o produto já está em fase de protótipo.

Um avanço citado como positivo pelos participantes foi a rotulagem nutricional, apontada por D’Elia como uma ferramenta que facilitou o acesso à informação pelo consumidor final, ainda que, segundo ela, haja espaço para mais aprendizado por parte do público sobre como interpretar esses dados.

Ao encerrar o painel, Tamara Lazarini sintetizou o consenso do grupo: nenhuma frente isolada — ciência, indústria, regulação ou sociedade — é capaz de resolver sozinha os desafios da alimentação global. Segundo ela, é na convergência entre esses pilares que estão as soluções mais seguras, sustentáveis e acessíveis para o futuro da nutrição mundial.

*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Food Connection

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