A indústria de laticínios dos Estados Unidos atravessa o maior ciclo de investimentos em infraestrutura industrial de sua história recente.
Segundo dados divulgados pela International Dairy Foods Association (IDFA), os processadores de laticínios do país estão destinando US$ 11 bilhões à construção e expansão de fábricas em 19 estados americanos — um movimento que combina automação, inteligência artificial e novas linhas de produção para atender a uma demanda que não para de crescer.
O motor por trás desse volume de capital é claro: a produção de leite nos EUA deve crescer 15 bilhões de libras até 2030, o equivalente a mais de 1,7 bilhão de galões adicionais.
Ao mesmo tempo, as exportações americanas de laticínios seguem em expansão, impulsionadas por compradores da América do Sul e Central, do Sudeste Asiático e do Oriente Médio, regiões onde a renda crescente tem se traduzido em maior consumo de produtos lácteos considerados seguros, confiáveis e acessíveis.
No mercado interno, o apetite também mudou de patamar. A busca por alimentos ricos em proteína e mais naturais elevou as vendas de iogurte, shakes, smoothies, cottage e whey protein em pó. Só o cottage cheese registrou alta de cerca de 20% nos Estados Unidos no período encerrado em junho de 2025, de acordo com a consultoria Circana.
O consumo per capita de laticínios no país chegou a 661 libras por pessoa em 2023, recorde histórico puxado por queijo e manteiga — o consumo de queijo, aliás, dobrou nos últimos 50 anos, enquanto o de leite fluido cresce pela primeira vez desde 2009.
Esse cenário se reflete diretamente na geografia dos investimentos. Nova York lidera o ranking com US$ 2,8 bilhões aportados, seguido por Texas (US$ 1,5 bilhão), Wisconsin (US$ 1,1 bilhão), Idaho (US$ 720 milhões) e Iowa (US$ 701 milhões).
Por categoria de produto, o queijo concentra o maior volume de recursos, com US$ 3,2 bilhões, seguido por leite e creme (US$ 2,9 bilhões), iogurte e produtos cultivados (US$ 2,8 bilhões), manteiga e leite em pó (US$ 1,6 bilhão) e sorvete (US$ 530 milhões).
Por trás dos números, quatro projetos ilustram como as empresas estão repensando suas plantas industriais.
Em Dunkirk, no estado de Nova York, a Wells Enterprises expande sua fábrica de sorvetes, peça central da rede nacional de manufatura que produz as marcas Blue Bunny, Halo Top, Bomb Pop e Blue Ribbon Classics.
Segundo Brad Galles, diretor de manufatura e engenharia da companhia, a planta ampliada foi projetada para elevar a produção e viabilizar futuras inovações, incorporando uma fábrica integrada de chocolate — inédita para a empresa — que passa a produzir internamente os ingredientes usados nos sorvetes e novidades da marca.
O novo complexo também conta com sistema geotérmico para aquecimento e resfriamento das áreas administrativas, um sistema de gestão energética que monitora o consumo em tempo real e linhas de produção isoladas, com climatização dedicada, para evitar contaminação cruzada por alérgenos.
Na Flórida, a Gelatys inaugurou no fim de maio uma nova fábrica em Fort Myers, com investimento de US$ 8 milhões. Erguida em um terreno de 1,5 acre, a planta de mais de 30 mil pés quadrados marca o salto da empresa rumo a uma escala nacional de distribuição.
De acordo com Adolfo Heller Cohen, fundador e CEO da Gelatys, a unidade opera com maquinário de última geração capaz de produzir em uma hora o que antes levava um dia inteiro na fábrica original, em Miami.
A tecnologia proprietária da empresa permite fabricar gelato artesanal em escala industrial sem perder textura, cremosidade ou qualidade — um diferencial que, segundo Cohen, poucas empresas do setor conseguem reproduzir.
O projeto foi desenhado em torno de quatro pilares: preservação da qualidade do produto, escalabilidade, eficiência operacional e flexibilidade para lançar novos formatos, incluindo a linha Mini Gems, os mini pops de gelato porcionados que a empresa planeja expandir nacionalmente.
Em Brookings, na Dakota do Sul, o grupo francês Bel iniciou as obras de uma expansão de US$ 200 milhões em sua fábrica de Babybel, que vai dobrar a capacidade de produção da planta, de 10 mil para 20 mil toneladas por ano. O investimento deve gerar cerca de 150 novos empregos e dobrar o volume de leite comprado de produtores americanos, principalmente da própria Dakota do Sul e de estados vizinhos.
Os Estados Unidos já são o maior mercado do Bel Group, respondendo por 33% das vendas globais da empresa e mais de US$ 1,2 bilhão em vendas anuais no varejo — um faturamento que dobrou entre 2018 e 2024. “A decisão de dobrar a capacidade desta fábrica nos posiciona para um crescimento de longo prazo nos Estados Unidos”, afirma Cécile Béliot, CEO do Bel Group, que projeta dobrar novamente o negócio americano nos próximos anos.
Segundo comunicado da empresa, o foco das novas plantas está na automação, com ênfase em segurança, ergonomia e bem-estar dos trabalhadores, aliada a ganhos de eficiência e produtividade.
Já no Canadá, a Danone anunciou o maior investimento de sua história no país para expandir a fábrica de Boucherville, em Québec, sua principal unidade de produção. O objetivo é ampliar a capacidade para atender à demanda crescente por iogurte, especialmente as versões ricas em proteína, além de modernizar o uso de energia da planta.
A empresa não revelou o valor exato do aporte, que se soma aos US$ 9 milhões já anunciados em junho de 2025 para a introdução de potes individuais de iogurte feitos em PET. O projeto energético integra o programa ÉcoPerformance, do governo de Québec, vinculado ao Plano para uma Economia Verde 2030.
Desde 2022, a fábrica de Boucherville já figura entre as primeiras unidades da Danone na América do Norte a desviar de aterros pelo menos 99% de seus resíduos não perigosos, sem enviar nenhum resíduo perigoso para aterro.
“Este investimento significativo reforça nosso compromisso com a produção local”, afirma Frederic Guichard, presidente da Danone Canadá, enquanto Géraldine Moret, vice-presidente de operações da companhia, destaca que o projeto reafirma a posição da Danone como uma das principais produtoras de alimentos do país.
Juntos, os quatro projetos resumem o momento da indústria láctea norte-americana: fábricas maiores, mais automatizadas e desenhadas para durar — construídas não para responder à demanda de hoje, mas para sustentar o crescimento projetado para a próxima década.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Dairy Foods






