Os Estados Unidos e o Canadá fecharam nesta quarta-feira (19) um acordo que interrompe a escalada tarifária entre os dois países — mas o entendimento tem um limite bem definido, e ele passa pelo leite.
Enquanto Washington obteve avanços em aço, alumínio, automóveis e produtos agrícolas, o governo de Mark Carney manteve intacto o sistema que protege a produção canadense de leite, aves e ovos, classificado por sua própria administração como fora de negociação.
O pacote anunciado por Donald Trump prevê zerar as tarifas sobre produtos agrícolas americanos exportados ao Canadá, além de reduzir pela metade as tarifas sobre aço e alumínio e baixar de 25% para 15% as alíquotas sobre carros e caminhões canadenses, segundo a Bloomberg. O acordo veio menos de 24 horas depois de Trump suspender por três dias uma tarifa de 50% sobre produtos canadenses que entraria em vigor à meia-noite de terça-feira (18).
Carney confirmou o avanço das tratativas em comunicado, afirmando que houve progressos substanciais, embora ainda restasse trabalho importante a ser feito. Nesta quinta, o ministro canadense responsável pelo comércio com os EUA, Dominic LeBlanc, retorna a Ottawa para se reunir com o primeiro-ministro e fechar os detalhes da negociação.
É justamente no capítulo dos laticínios que o acordo revela seus limites. O sistema canadense funciona por meio de cotas: o governo define quanto pode ser produzido internamente e também estabelece um teto para as importações que entram no país com tarifas reduzidas.
Quando esse teto é ultrapassado, as tarifas sobre laticínios importados podem superar 200% — um mecanismo que, segundo Washington, dificulta o acesso de produtores americanos ao mercado canadense. Os EUA também questionam a forma como o Canadá administra as cotas de importação previstas no USMCA e as políticas de preços do leite no país.
A resposta do governo Carney já havia sido dada antes mesmo do acordo desta semana: esse sistema não entrará na mesa de negociação.
O impasse em torno do leite não é um detalhe isolado dentro do relatório anual que o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) elabora sobre o Canadá — documento que também lista atritos em áreas como bebidas alcoólicas, sementes e grãos, medicamentos patenteados, energia em Alberta e propriedade intelectual.
Mas é o ponto em que a resistência canadense se mostrou mais firme, mesmo diante de um acordo que avançou em praticamente todas as outras frentes.
Para a cadeia láctea brasileira, o episódio funciona como um retrato de como um país lida com pressão tarifária dos Estados Unidos sem abrir mão de seu mecanismo de proteção ao mercado interno de leite — justamente em um momento em que o Brasil também enfrenta tarifas americanas e já levou o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC), alegando discriminação nas medidas impostas por Washington.
O desfecho da negociação entre EUA e Canadá, e a forma como o setor leiteiro ficou de fora do pacote fechado nesta semana, deve seguir sendo acompanhado de perto por quem depende do comércio internacional de lácteos.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por TG1






